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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, VILA APARECIDA IVONE, Homem, de 36 a 45 anos



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CABE NA LETRA

É comover o avesso. Enxergar o contrário no escuro do silencio que grita. Decantar a aura com pureza bruta. Acalentar a alma de natureza burra. Acalme a certeza que urra. Jamais minta verdades à mente, amém. 



Escrito por Giuliano Agmont às 02h01
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REFLEXÃO PASCAL

Qual é o estado absoluto da liberdade? A condição das coisas não pode ser encarcerada pela linguagem. Respirar constitui um ato efêmero demais para tornar-se dizer. Extremos sopros selvagens de violência. Um equilíbrio reconfortante como a água fresca que desce da montanha. Ou a lágrima salgada dos olhos. Folhas secas em dias de chuva. Rangem os troncos. Cheiro de terra molhada. Raios solares que reluzem bichos e plantas. Formigas caminham, como a humanidade, só que sem sonhos ou ambições. Com num átimo infinito, de amor pelos filhos, amém.  



Escrito por Giuliano Agmont às 16h27
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O PESO DA BOLHA

Comprei meu primeiro disco de rock aos 10 anos de idade. Acho que foi em uma loja de rua do Centro de São Paulo. Era o segundo LP dos Paralamas do Sucesso, intitulado “O passo de Lui”. Na época, às vésperas do Rock in Rio, já curtia superficialmente bandas como Iron Maiden, Van Halen, AC/DC, Kiss e Rush, por influência de primos e amigos. Poucas semanas depois, a dias do histórico megaevento, pedi de aniversário para um amigo do meu pai, o Faísca, que corria feito flecha atrás da bola pela ponta direita, outros dois discos do ascendente rock nacional. O principal deles era “Maior abandonado”, do Barão Vermelho. Lembro-me como se fosse hoje da foto da contracapa, com os integrantes da banda tomando uma geral da polícia em um muro pichado. O segundo era um do Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, acho que o primeiro, com a estonteante Paula Toller na capa.

Nem é preciso dizer que quase furei as três bolachas na vitrola de casa. Não por acaso, quando vi Herbert Vianna no palco do Rock in Rio, ainda de dia, sabia quase todas as letras dos Paralamas na ponta da língua. O mesmo aconteceu com as pedradas de Cazuza. Na ocasião, estava em uma colônia de férias no Guarujá, no litoral paulista, e via o resumo de cada dia do festival pela TV Globo no fim da noite, quase sempre na sala de jogos. Também me recordo dos flashs ao vivo dados por Nelson Motta e Glória Maria, com caras novinhas! Infelizmente, ainda era um pirralho para estar lá, embora tenha ficado revoltado com a proibição imposta por meus pais. Seja como for, admito que a música tema do evento ainda me causa arrepios: “Que a vida começasse agora, e o mundo fosse nosso outra vez...”.  

Quando soube da morte de Ezequiel Neves, mentor do Barão, pensei imediatamente no meu velho long play e seus 25 anos de prateleira. Lendo algumas matérias sobre o jornalista e produtor musical, tive a certeza de que meus instintos pré-adolescentes estavam certos ao identificar algo novo no som de Cazuza, Frejat, Guto Goffi e Maurício Barros. Ele era conhecido como Zeca Jagger, por sua devoção ao líder do Rolling Stones, e entendia de rock como poucos. Infelizmente, só soube de sua existência ao ver o filme biográfico sobre Cazuza, mesmo assim, sem grande entusiasmo, talvez pelos excessos nos trejeitos.

O que eu não esperava era me deparar com textos dele em uma pequena loja de CDs da Rua Teodoro Sampaio, aqui em São Paulo, um reduto de instrumentistas atraídos pelas intermináveis vitrines com guitarras, baixos, metais, baterias e partituras. Tenho garimpado trabalhos de bandas de rock nacional há algum tempo e estava procurando os primeiros discos do Joelho de Porco. Eis que, na prateleira, vi outras duas pérolas relançadas pelo Museu do Disco: o único álbum de estúdio da banda O Peso e um belo trabalho de 1977 do conjunto A Bolha. Na contracapa, a surpresa: resenhas de Ezequiel Neves!  

No disco “É proibido fumar”, de A Bolha, Zeca evoca um de seus pseudônimos, Ângela Dust, para contestar esta provocante frase escrita por ninguém menos do que Paulo Francis: “Não posso acreditar que quem goste de rock seja animal vertebrado”. Em resumo, ela diz que o rock é filosófico e inteligente. Mas, no texto da resenha, o crítico admite, parodiando seu ídolo Mick Jagger: “It´s only rock n´ roll, but I like it”. No álbum “Em busca do tempo perdido”, de O Peso, o produtor revela que aprendeu tudo o que sabe sobre rhythm n´ blues justamente com o guitarrista e compositor da banda, o americano Gabriel O’Meara. Conta que recebeu as “lições” quando era editor musical da versão brasileira, e então pirata, da revista Rolling Stone, em 1971.  

Tem gente que gosta de acompanhar as novidades do mercado fonográfico na boca do forno. É um pessoal antenado, sempre de olhos, e ouvidos, em bandas de garagem dos mais remotos guetos do planeta logo que despontam. Eu prefiro descobrir coisas inéditas do passado. Inéditas para mim, obviamente.  É impressionante a riqueza musical dos anos 60 e 70, principalmente quando se fala de rock. Se o assunto for blues, então, dá para voltar ainda mais no tempo. Este é o meu barato, curtir as músicas de uma época que não vivi, mas que produziu o melhor do gênero. Nesse ponto, a internet é quase um Deus. Afinal, só um milagre para ressuscitar dinossauros. Aproveito para fazer uma remissão à revista Poeira Zine, clique aqui. Conheci está verdadeira enciclopédia do rock quando Zappa saiu na capa da terceira edição.



Escrito por Giuliano Agmont às 02h02
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O FUTEBOL E OS ESPAÇOS

Assisti à partida entre Brasil e Holanda de meias para minha mulher não me chamar de pé frio. É que estava com a pulga atrás da orelha em relação a nosso alaranjado adversário e, ao sair de manhã para passear com meu cachorro, soltei alguns indevidos comentários: “Não sei não... Algo me diz que não vai dar, mesmo com um time melhor. Queria estar mais confiantes. Mas vou torcer pelo Brasil!”. Obviamente, ouvi descomposturas dos vizinhos. “Isso é coisa que se diga?”, esbravejou um deles. “Não, nós vamos ganhar”, decretou o outro.

Assim como fizera nos primeiros jogos do Brasil, pus na Bandeirantes, já que Luciano do Valle e Neto pareciam estar dando sorte, apesar das gafes do já ultrapassado narrador esportivo que alavancou o vôlei do país. Os bebês ficaram com a babá, tocando corneta com a molecada da rua, e minha mulher trouxe batata Pringles com tubaína, combinação explosiva. O Brasil começou muito bem, marcando em cima, tocando bem a bola, soberano em campo.

O gol de Robinho com um passe magistral de Felipe Melo parecia ser o prenúncio de um massacre, assim como acontecera com o Chile. Contra os sul-americanos, aliás, o time comandado por Dunga se comportou como um implacável predador. Neutralizou a presa só com o olhar, como alguns índios ainda fazem até hoje. A seleção de Valdivia mostrou-se incapaz de esboçar reação diante da bem postada equipe verde e amarela e acabou abocanhada sem força para fugir, como uma zebra ferida por leões.   

Quando Kaká quase meteu no ângulo depois de excelente jogada de Robinho pela esquerda e ótima assistência de Luís Fabiano, tive a certeza de que estava enganado. Parecia evidente que minha previsão inicial (veja no último post) de que a Holanda seria a campeã desta Copa caia por terra. Pelo menos até o início do segundo tempo. Logo que o árbitro japonês autorizou o recomeço da peleja, minha mulher já começou a gritar no meu ouvido: “Corre, marca... O que está acontecendo?”. Ela que quase mergulhou na TV para fazer um gol de cabeça no primeiro tempo em um cruzamento não me lembro de quem.

Disse que o time estava só tirando um pouco o pé porque não aguentaria correr o que correu no primeiro tempo o jogo todo. Mais alguns minutos e... Pum! Veio o castigo. Uma bola despretensiosa alçada na área termina com uma patacoada. O goleiro Júlio César se choca com o volante Felipe Melo no ar e um atrapalha o outro. Gol contra, e o que parecia fácil tornou-se duvidoso. O mais impressionante é que a Holanda não teve grandes méritos pelo desfecho da jogada. Mais que uma falha, o que aconteceu ali foi puro azar. Vi o lance depois pela câmera lenta e notei que o arqueiro brasileiro acerta uma cotovelada no rosto do meio-campista quando a bola estava praticamente na cabeça deste e nos punhos daquele, uma cena esdrúxula e inédita.

De repente, o jogo mudou. A Holanda continuou pouco agressiva, mas passou a tomar conta da partida, sem nenhum brilho, acrescente-se. As estrelas começaram a aparecer, com mais toque de bola, e o Brasil sentiu o golpe. A caça parecia ter se reerguido depois de uma distração do caçador. Dito e feito. Em outra bobeada do setor defensivo, o jogador mais baixo do ataque holandês, Sneijder, cabeceou para as redes: 2 a 1. Atônito, olhava para a televisão sem acreditar no que estava vendo. Não era justo. O placar não refletia o que tinha sido o jogo até então. Eis que Felipe Melo, o nome da partida, tornou ainda mais difícil o que parecia impossível. Deu um pisão em Robben e acabou expulso.

Dali para frente, entramos no “bumba meu boi”. Em alguns momentos, cheguei a achar que empataríamos. Ledo engano. Desta vez, foi o Brasil que não demonstrou poder de reação, embora tenha caído em pé. Quando Daniel Alves acertou a barreira naquela última falta, joguei a toalha. Ainda perplexo, fiquei trocando de canal para ouvir as análises de diferentes comentaristas. Júnior e Casagrande estavam mais confusos do que eu. Neto ficou enaltecendo a Holanda e descendo o sarrafo no Felipe Melo, bem aquém de suas tiradas habituais. Preferi não ouvir os dois da Sportv, André Rizek e Paulo César Vasconcellos, fracos para comentar jogos do Brasil em comparação com Lédio Carmona, por exemplo. Péssima escolha da emissora. Emerson chorou diante das câmeras e não conseguiu falar. Milton Neves lembrou os meninos da Vila, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho. Datena achou que não era hora de crucificar ninguém, embora tenha dito que o Brasil treinou o treinador. E Vampeta falou que daria uns safanões no volante esquentadinho do Brasil no vestiário.  

Só comecei a entender o que realmente tinha acontecido quando Denílson deu sua versão para os fatos. Não me lembro das palavras, mas ele falou algo sobre "pegada". Depois, finalmente, ouvi Paulo Roberto Falcão, o protagonista da cena mais eletrizante que vi em uma Copa do Mundo: o gol de empate do Brasil contra a Itália em 82 e a comemoração do Rei de Roma com todas aquelas veias saltando dos braços e do pescoço. Apesar de considerar seus comentários sempre meio enfadonhos, sou obrigado a reconhecer que ele matou a charada, assim como minha mulher, esta sem perceber. O nó na garganta não tinha nada a ver com o Dunga e sua teimosia. Ou com a ausência de Ronaldinho e Ganso. O que pegou foi que o Brasil teve o jogo na mão e o deixou escapar sem entender muito bem como.

Eis o grande detalhe da partida. No primeiro tempo, o Brasil marcou em cima, sem dar chance de respiro para os adversários. No segundo, porém, afrouxou a pegada e ofereceu espaço para os holandeses. Esse o erro capital do time. Não que os holandeses tenham aproveitado muito bem a oportunidade, mas se sentiram mais à vontade em campo e ampliaram seu tempo de posse de bola. Como a sorte acabou dando uma ajudinha, o destino foi o que todos conhecem. A Holanda não mereceu vencer tampouco o Brasil mereceu perder. Em nenhum momento, os laranjas ofereceram riscos à meta de Júlio César. Os gols saíram sem querer.      

Mesmo sem banco, praticamos o melhor futebol pragmático da Copa. Mostramos por que temos a melhor defesa do mundo. Até Gilberto Silva jogou bem. Felipe Melo, quem diria, se não fosse um cabeça de vento, poderia ser lembrado como um volante acima da média para os atuais padrões. Assim como Ramires, que tomou um segundo cartão amarelo idiota e ficou fora do último jogo. Sem esquecer de Elano, com alguns lampejos de futebol arte. Demos azar e não conseguimos levantar após o primeiro tombo. Ponto. Copa do Mundo é isso. Um jogo decide tudo. Claro que faltou o que todos sabiam, um jogador que chama a responsabilidade para si em momentos adversos. Kaká provou que está longe de ser esse cara. Infelizmente, os são-paulinos já sabiam disso. Ele é o craque do quase. Faltou também um pouco de equilíbrio emocional, Dunga e seus comandados estavam muito nervosos, talvez despreparados psicologicamente para a competição ou excessivamente obstinados. Mas fizeram o que acharam ser certo, e não estavam muito errados, tanto que perdemos pela falta de pragmatismo na marcação.

Embora tenha cravado a Holanda como campeã da Copa da África do Sul, vou torcer agora por Argentina, Alemanha e Espanha, que mostraram um futebol muito mais cativante. Espero que vença a que jogar mais bonito. No frigir dos ovos, talvez tenha sido melhor sair nas quartas. Imagine tomar um chocolate da Argentina na final, com show de Messi. Nunca mais teríamos moral para gozar nossos hermanos. Maradona, então, ficaria insuportável. Mas são coisas do futebol. E vai que o Uruguai é campeão. 



Escrito por Giuliano Agmont às 16h56
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DUNGA E OS GANSOS

Participei da cobertura dos treinos da seleção brasileira no Centro de Treinamentos do Atlético Paranaense, em Curitiba. Nada muito empolgante. Estava lá a serviço de um dos patrocinadores do time para mostrar os bastidores da preparação do Brasil para a Copa. Afora o circo midiático, chamou minha atenção a presença de 11 gansos no gramado ao lado da sala de imprensa montada no CT do Caju. Pelas circunstâncias, pareceu-me provocação. Não dá para ter certeza. Também achei graça da declaração de um inflamado torcedor rubro-negro do lado de fora do bloqueio em torno dos jogadores: “O Dunga é um exemplo para a saúde do Brasil... Não usa craque!”.

É difícil explicar a implicância de parte da torcida com o atual treinador da seleção (pelo menos para quem não acompanha futebol). Dunga assumiu o time do Brasil sem nunca antes ter sido técnico de futebol e, contrariando as expectativas, ganhou tudo o que podia. Gaúcho que é, montou um time coeso e competitivo. Excluiu as laranjas podres e restabeleceu o espírito de seleção no grupo. Preparou um esquema tático robusto, conseguiu dos jogadores comprometimento cego e chega para a Copa como favorito ao título. Tem grandes chances, inclusive, de vencer com sobras, embora eu não acredite nisso.

Na coletiva em que anunciou os 23 nomes que iriam para a África do Sul, deixando de fora Ganso e Ronaldinho, Dunga fez uma comparação que nos ajuda a entender o perfil deste time brasileiro que luta pelo hexa. Ele equiparou seu trabalho ao de um executivo. Falou que a seleção é como uma empresa que busca resultados. Existem, de fato, inúmeros pontos convergentes entre a lógica corporativa e as premissas do futebol. Afinal, a competição é o pano de fundo para ambas. Ainda assim, penso que são duas coisas completamente diferentes, sobretudo quando o assunto é Copa do Mundo.

O sucesso do futebol está em três de seus mais nobres ingredientes: a paixão, a magia e a arte! São pilares que evocam os urros primitivos da alma humana. Para quem sabe apreciar as peripécias do bola, os lances encantam mais do que o jogo. E é justamente aí que começam as minhas divergências com Dunga. Aparentemente, ele se imbuiu do objetivo de vencer a qualquer preço, nem que para isso tenha de prescindir da criatividade e da inteligência dentro de campo. É claro que o talento perdeu espaço no futebol moderno, de forte marcação, grande velocidade e muito contato físico. Mas isso não significa que deva ser relegado.

Ganso, obviamente, não pode ser comparado a Pelé, o atleta do século XX. Basta ver algumas jogadas do Rei do Futebol para constatar que nem Maradona o destronaria. Porém, não seria exagero compará-lo a Pita, outro histórico camisa 10 do Santos. Recordo-me dele na final do campeonato paulista de 1985, jogando pelo São Paulo. Com 11 anos de idade, já frequentava o estádio do Morumbi. Detrás do gol, assisti àquele time montado pelo saudoso Cilinho se movimentando em bloco. Quando entrou, acho que no segundo tempo (se não me engando, ele e Fofão não se bicavam), Pita mais parecia um maestro regendo sua orquestra. E que orquestra! Além de Oscar e Dario Pereyra na zaga, desfilavam em campo Falcão, Müller e Careca. No final, vencemos por dois tentos a um e iniciamos uma série histórica de conquistas, que inclui o Brasileiro de 86 e o Paulista de 87, este contra o curintinha.  

Dar chapéu no meio de campo, enfiar bolas em profundidade, fazer lançamentos longos e enxergar companheiros livres entre os zagueiros são só alguns dos atributos dos craques. Paulo Henrique, o Ganso, protagoniza pelo menos um ou dois desses lances quase todo jogo. De quebra, ainda marca gols memoráveis. Sem falar da liderança que exerce dentro das quatro linhas. Isso com 20 anos de idade. Fazia tempo que não surgia um jogador assim no Brasil, clássico. Nem Rivaldo tampouco Raí tinham o requinte desse menino. Mesmo Alex, que o inspirou, tinha menos presença em campo. Com pontuais diferenças, ele faz lembrar nomes como Zenon, Éverton, Edu Marangon (que estava na Portuguesa naquela final) e o próprio Pita. Aliás, Pita era o reserva de Zico na Copa de 1982. Lembro-me disso porque só não consegui completar aquele álbum do (chiclete) Ping-Pong por causa dele. Faltou apenas a figurinha do então meia-esquerda do Santos. E ninguém tinha, nem para trocar muito menos para disputar no bafo (pois é, naquela época ainda “batíamos” figurinha). É um crime histórico tirar desse menino a chance de jogar ao menos três Copas no auge da forma, mesmo que a primeira fosse na reserva, como Kaká, Ronaldinho e Pelé. Em 2014, provavelmente, será o 10 do Brasil (ou, se Kaká ainda estiver bem, o 8).

Cresci vendo meu pai jogar futebol. Ele era um volante clássico. No clube que frequentávamos, recebeu o apelido de Afonsinho, por suas semelhanças com jogador que inspirou o documentário “Passe livre”: ambos tinham barba e falavam muito em campo. O velho marcava e desarmava bem, mas sua principal virtude era sair jogando com a bola no pé, sem chutões, só trocando passes. Além disso, sabia e gostava de fazer lançamentos longos para os atacantes. Não me lembro de tê-lo visto fazer gols, mas isso não diminuia a admiriação por sua categoria: deixava o campo sem sujar o calção e as meias. Por influência dele, também me tornei um volante. Assim, aos oito anos, já treinava no campo de terra lá do clube e despontava como um promissor cabeça-de-área.

 

Na época, meu treinador era ninguém menos do que Bauer, o monstro do Maracanã, ícone do futebol arte. Dizem os mais velhos, na década de 40, ao lado de Ruy e Noronha, com a camisa do São Paulo, Bauer escrevia poesia sobre a grama. Não por acaso encantou o mundo nas Copas de 50 e 54, regendo o meio-campo da seleção brasileira. Apesar dos traços do tempo, pude ver naquele ex-jogador de olhar cansado os movimentos de um verdadeiro mito. Com ele, aprendi a matar a bola, a passá-la e, principalmente, a me colocar em campo. Deveria também ter prestado mais atenção à maneira segura e requintada como conduzia a bola, driblando um, dois e, por vezes, três cones. Kaká e suas arrancadas jamais chegarão a seus pés.

Todo esse preâmbulo para dizer que me sinto absolutamente à vontade para falar de volantes. No segundo dia de coletiva lá no CT do Caju, os pentacampeões Gilberto Silva e Kleberson enfrentaram a imprensa. Eu estava ali, na primeira fila, coçando-me para fazer uma pergunta, mas achei melhor ficar longe do microfone, acho que criaria constrangimentos desnecessários. Além do que, não estava ali para isso. Preferi escrever este texto. A certa altura, alguém questionou os jogadores sobre o excesso de volantes no time e o capitão Gilberto Silva desconversou, disse que essa polêmica nunca acabará. O problema é que não se trata de polêmica. Este é um fato: a seleção é um time de volantes, e volantes sem criatividade, sem elegância, volantes de contenção. Bauer deve estar se revirando no túmulo. O time só tem um meia, Kaká. Forçando um pouco, Ramires e Elano. O resto é volante.    

Se Kaká jogar o que sabe e pelo menos um dos atacantes convocados fizer o mesmo, o time de Dunga deve voltar da África do Sul com o caneco. Um cala-boca retumbante aos críticos. Mas, de novo, corremos o risco de termos um time vencedor, só que sem brilho. Até porque Kaká, embora seja um excepcional  jogador (as imagens do então reserva do tricolor marcando dois gols contra o Botafogo na final da Taça Rio-São Paulo de 2002 no Morumbi continuam vivas na  memória, mesmo tendo visto tudo do outro lado do campo), não exerce aquela liderança dos grandes meias do passado. E não é por ter pinta de bom moço ou insistir em bradar suas verdades religiosas aos quatro ventos, mas, sim, pela falta de brio. É um jogador que “foge do pau”. Teve a pajorra de não disputar uma final de campeonato contra o Corinthians, nem vestiu a camisa. Nessa hora, com o perdão do exagero, tem de entrar contundido e sair de maca. Pior, no jogo amistoso do Brasil no Haiti, não foi por exigência do clube. E ainda: na Copa de 2006, até ameaçou se levantar contra a balbúrdia que se instalara na concentração, mas, de uma hora para outra, acanhou-se e sumiu dentro e fora de campo. Para complicar, pode estar "bichado". Ouvi dizer que só está aguentando o ritmo por conta de corticóides e que, logo após a Copa, será operado. Luís Fabiano é o inverso, diga-se. Nessa mesma final contra o Corinthians, em 2003, fez dois golaços no segundo tempo e quase viramos o jogo. Seria um título histórico. Mas também está fora de ritmo.

Pelo que entendi, o substituto de Kaká é outro ex-são-paulino, Júlio Baptista. Considero-o um injustiçado. Estava no estádio no dia de sua estréia. Lembro-me perfeitamente de perguntar a meu colega de arquibancada quem era aquele negão. Pelo tamanho, tiva a impressão de que se tratava de um zagueiro. De repente, ele mata a bola no peito e emenda um passe de três dedos. “Caralho”, pensei. “O que é isso?”. Com o tempo, vi que minhas expectativas iniciais em torno do jogador não se confirmaram, mas na seleção ele mostrou ser uma peça importante, que entrou e decidiu. Seu passe de calcanhar no último amistoso mostra que tem categoria. Mas não como Ganso. Também acho que as críticas em torno do Josué são exageradas. Sem ele, o São Paulo não teria vencido o mundial interclubes de 2005. Ele desarma, dribla e sabe tocar a bola. Mas não como Bauer. Talvez Dunga pudesse usar um pouco de criatividade para encaixar o Ganso no time sem mexer em sua coerência. Só fico em dúvida se ele e seu fiel escudeiro, Jorginho, têm essa criatividade. As jogadas protagonizadas por  Bauer nos anos 40 e 50 reluzem mais na memória dos antigos torcedores do que a taça erguida por Dunga em 1994.

Recentemente escrevi uma matéria sobre o cérebro humano. Durante minha pesquisa, li algo interessante a respeito de nossa memória. Falava da importância de estímulos sensoriais e emocionais para o cumprimento de funções cognitivas. Dizia que as lembranças costumam vir a partir de experiências que mexam com nossa afetividade, e nossos sentidos. Em 1982, estava na casa de um amigo do meu pai, no interior de São Paulo, quando Paulo Rossi acabou com o sonho do melhor time que vi jogar. Dezesseis anos depois, com 20 anos, assisti à final da Copa em algum lugar, mas não consigo me lembrar onde. Recordo claramente dos gritos “É tetra!” do meloso Galvão Bueno e de seu abraço desajeitado com Pelé, só não consigo lembrar onde eu estava. Isso talvez mostre a diferença do que sinto em relação a essas duas seleções. Uma pragmática, objetiva, burocrática, mas com um gênio na arte de marcar gols lá na frente, o baixinho Romário. Certamente, muito pouco perto da constelação de craques liderados por Zico e Sócrates e comandados pelo mestre Telê Santana.

Não me importo de perder. Desde que tenhamos um time que jogue bonito, de preferência, por música. As safras de jogadores capazes de encher nossos olhos com lances tão belos quanto imprevisíveis nascem de baciada nos campinhos do Brasil. Por que renegar essa vocação do nosso futebol? Concordo que a coerência faz diferença no exercício da liderança. Só que em nome dela não se pode apunhalar o que de mais nobre nos resta nesta era de futebol tipo exportação: a paixão do torcedor menino que constrói com magia e arte o imaginário coletivo da bola. É atrás dessa vocação que estamos todas as vezes que ligamos a TV para ver um jogo ou compramos um ingresso para ir ao estádio... Espero, honestamente, estar exagerando. Quem sabe os comandados de Dunga nos reservem gratas surpresas com jogadas espetaculares e lances de emocionar o garotinho dentro de cada um de nós.

Acho que a Holanda será a campeã do mundo de 2010. Torço para que a Argentina jogue tudo o que sabe e adoraria ver a Espanha chegando à final com o futebol fino que está praticando. Quem sabe até Inglaterra ou Alemanha não resolvem fazer apresentações de gala. Mas, como bem lembrou Tostão em uma recente declaração, previsões não são para entendidos. Ele conta que seu desempenho no bolão da última Copa foi medíocre. E que a vencedora foi a copeira da firma. “Quem entende de Copa é a copeira”, escreveu. Acho que é isso, já abusei das palavras. Hoje é aniversário do meu filho mais velho e amanhã será a festa dele junto com a do menor. Vou dormir para receber bem os amigos. Parabéns meninos e vamos torcer pelo Brasil. As bandeirinhas e os desenhos da rua já estão lá. Os uniformes e as cornetas também. Voa canarinho, voa...  



Escrito por Giuliano Agmont às 23h59
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O POETA ESTÁ VIVO

Ligaram logo cedo da Record pedindo o telefone do assessor do Renato Russo. Um colega mais esperto, na hora, prenunciou, enquando redigia algumas manchetes para o Jornal da Manhã: “Tem algo estranho aí, vai atrás”. Como havia deixado o posto de “checador” e tinha um monte de coisas a fazer, desencanei. Na ocasião, era um repórter-produtor da área de variedades da Jovem Pan AM.

 

Passadas algumas horas, veio a confirmação. Na rádio, o saudoso correspondente Flávio Ferreira, do Rio de Janeiro, encarregou-se de dar a notícia. Com seu sotaque típico de carioca e um texto um tanto seco, cravou, não me lembro se com estas palavras: “Cantor e compositor Renato Russo, líder da banda de rock Legião Urbana, morre vítima de complicações da Aids”.

 

Depois de instantes de choque e perplexidade, poucos sabiam da doença, um pensamento irrompeu minha consciência: “Como sou burro, deveria ter ido atrás”. Nem é preciso dizer que a informação caiu feito bomba na redação. Em poucos minutos, todos os telefones já estavam ocupados. Leda Cavalcanti, minha chefe na época, abriu sua cobiçada agenda e começou a distribuir telefones de artistas que poderiam comentar o óbito do músico.

 

Tentei achar, entre outros, a cantora Simone, que gravara uma memorável versão de “Será”, de Renato Russo. Conversei com a assessora dela, perturbei gente da família e devo ter feito perguntas até para o papagaio da cantora. Só não consegui falar com ela. Segundo ouvi, Simone estava em um sítio longe de qualquer telefone. Durante várias horas tentei sem sucesso colocá-la no ar.

 

O mais impressionante é que esse episódio ocorreu há menos de 15 anos, precisamente no dia 11 de outubro de 1996. Naquela época, o telefone celular era artigo de luxo. Na rádio, usávamos aqueles tijolões da Motorola. Fico pensando o que aconteceria se tudo aquilo tivesse se passado nos dias atuais... Será (sem trocadilhos) que conseguiria falar com a Simone? É evidente que qualquer um ainda pode se embrenhar em um meio de mato e se manter incomunicável por dias. Mas são poucos os que, de fato, o fazem. Por isso acho que teria, sim, ouvido um depoimento dela sobre a morte daquele que foi um dos grandes poetas do rock brasileiro.

 

O autor de Faroeste Caboclo e Que País é Este teria hoje 50 anos de idade. Se valendo da efeméride, a EMI lançou Duetos, “um tributo em forma de insulto”, segundo o crítico Antonio Carlos Miguel, de O Globo. Concordo que fundir vozes de mortos e vivos pode ser algo de gosto duvidoso, mas admito que curti ouvir Zélia Duncan com Renato Russo. Assim como adoraria ter testemunhado uma jam session com Cazuza, Hebert Vianna, Renato Russo e Arnaldo Antunes.

 

Também confesso que só comecei a gostar de Legião Urbana depois da morte de seu vocalista. Nos anos 80, preferia Barão, Camisa, Titãs, Ira e Paralamas, além de Cólera, 365, Garotos Podres, Inocentes e Plebe Rude. Mas aprendi a gostar do som sujo e das letras ácidas proferidas com vozes graves da banda de Brasília. E rendi-me ao talento do autor de composições que beiram a perfeição, incluindo suas sagas cantadas. Ainda mais sabendo que deu ao filho o mesmo nome que o meu. 



Escrito por Giuliano Agmont às 00h12
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PILANTRAGEM EM PRETO E BRANCO   

Entrevistei Jorge Ben Jor em meados da década de 1990 por ocasião do anúncio de seu contrato com a Sony Music. Minha primeira missão de rua como integrante da equipe de produção do Show da Manhã, da rádio Jovem Pan AM, aqui de São Paulo. Antes dele, havia gravado um papo quase descontraído com João Nogueira, por telefone. A despeito de minha inexperiência como repórter, as duas matérias foram ao ar na íntegra. Ou seja, cumpriram bem seu papel, e até recebi elogios. Mas, hoje percebo, estava definitivamente despreparado para realizar ambas as entrevistas.

 

A primeira, com o sambista, serviu como teste. Passei com louvor, só omiti que até então nunca tinha ouvido falar do criador da Casa do Samba. Jorge Ben eu conhecia. Ele estava em um de seus auges da carreira. Tinha ido a alguns shows dele antes da entrevista, sempre tirando casquinha da mulherada em transe naquele clima de País Tropical. Também já estava cansado de ouvir W/Brasil nas rádios. Mas sabia muito pouco sobre sua história.

 

Lendo o livro “A vida e o veneno de Wilson Simonal”, de Ricardo Alexandre, tive a confirmação de minha completa ignorância. Lá pelas tantas o autor escreve: “E Simonal, sem ânimo e sem espaço artístico, olhava à distância a febre em torno do amigo flamenguista. Acompanhava cada entrevista de Ben Jor, na vã esperança de que o velho compositor usasse de seu enorme espaço na mídia para lembrar da voz que lançara ‘País tropical’ e ‘Zazuera’ tantos anos antes. Sem mais o que fazer, Simonal sentava-se de cuecas na sala de estar da casa de sua nova mulher, Sandra Cerqueira, pegava o telefone, e mais uma vez, tentava ligar para o gabinete do presidente da República atrás de novos documentos que comprovassem sua inocência das acusações de ser um delator dos tempos da ditadura”.

 

Senti-me um estúpido ao decodificar esse parágrafo. Logo imaginei Wilson Simonal de cueca na sala esperando que este energúmeno repórter fizesse uma pergunta sobre ele, o que seria absolutamente pertinente. Pena que, na oportunidade, o nome daquele que foi um dos maiores cantores que o Brasil já produziu não significava nada para mim. Talvez já tivesse ouvido algo dele com meu pai, mas certamente seria incapaz de associá-lo ao entrevistado. O porta-voz da pilantragem ainda era um ilustre desconhecido para o foca que conversava com Jorge Ben naquela tarde.

 

Wilson Simonal era um negro metido a besta. Andava nos trinques e só tinha carro importado na garagem. Era ligado a uma multinacional norte-americana (a Shell, assim como os Mutantes) e vivia de conversinha com agentes do Dops. Pagou um preço alto por isso, maior até do que outro negro, o goleiro Barbosa, da seleção de 50, responsável pelo Maracanazo. Acabou covardemente triturado pelos patrulheiros ideológicos, a “esquerda festiva”, como gostava de dizer, e experimentou o ostracismo na mesma intensidade em que fizera o povo inteiro cantar anos antes, mais até do que Roberto Carlos.

 

Uma acusação sem provas destruiu a carreira do rei do Beco das Garrafas. Jornalistas, sem checar informações, transformaram Wilson Simonal em dedo-duro. A pecha pegou e o acompanhou até seu último suspiro. Infelizmente, perdi a chance de ressuscitar Simonal em vida. Tudo bem, ainda nem tinha meu diploma, mas isso não é justificativa. Informação é informação. Só me resta agora assistir ao documentário sobre o autor de “Tributo a Martin Luther King" e prestar-lhe esta devida homenagem.



Escrito por Giuliano Agmont às 03h05
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VOA PENA, VOA

Tinha pouco mais de 14 anos e estava tão eufórico quanto assustado. Lembro-me de entrar pelo portão de imprensa do Morumbi para transmitir a semifinal do Campeonato Paulista de 1987 entre São Paulo e Palmeiras. Como as cabines de rádio eram exclusivas às grandes emissoras, ficamos de pé em baias dispostas nos fundos do anel inferior do estádio, quase na altura do campo, vendo os jogadores horizontalmente. Éramos três na cobertura da partida: meu tio narrando o jogo, um repórter dando detalhes do gramado e eu tecendo comentários esporádicos, como convidado especial. Naquele dia o goleiro Zetti, então da equipe porcina, engoliu um peru histórico após uma falta cobrada por Neto do meio da rua, e o tricolor avançou à final, vencendo posteriormente a disputa contra o Corinthians (que delícia!). 

Dois anos depois, em 1989, já mais esperto, fiz outro jogo a convite do irmão mais novo do meu pai. Foi no estádio da Central Brasileira de Cotia, à margem da Rodovia Raposo Tavares, aqui em São Paulo. O árbitro era Dulcídio Wanderley Boschilia, um PM que encarava qualquer jogador na porrada. No time da Central de Cotia, outros dois nomes de peso: Wladimir, ex-lateral do Corinthians, e Luís Pereira, ex-zagueiro do Palmeiras e da seleção brasileira – este último, aliás, foi quem acabou com a sequencia de mais de 1.200 minutos sem sofrer gol do arqueiro Zetti pouco antes da derrota para o São Paulo no Paulistão de 1987 (jogando pelo Santo André).

Nas duas ocasiões, meu desempenho deixou bastante a desejar. Enquanto comentava as jogadas, meu tio, com olhos arregalados, fazia para mim movimentos circulares e rápidos com a mão direita. Na hora, fiquei com a clara impressão de que estava abafando e deveria prosseguir com a ladainha, mas só depois vim a saber que o objetivo da mímica era me fazer falar mais rápido e de forma, digamos, menos travada.    

Além de servir de estímulo para minha futura carreira de jornalista, essas experiências estabeleceram vínculos entre mim e meu tio. Não por acaso, depois de muitos anos, praticamente uma década e meia, voltamos a trabalhar juntos, desta vez em um jornal sobre romeiros. Na época, estava desempregado e achei que poderia ajudá-lo, talvez retribuir o empurrãozinho que recebera. 

Assim, duas ou três vezes por semana, lá ia eu de trem e ônibus para Pirapora do Bom Jesus. O choque cultural é tremendo. Ali, à margem de uma megalópole, o interior ainda respira, mesmo com os descaminhos dos adolescentes. E foi fechando uma das edições do jornal que conheci o cantor e compositor Renato Teixeira. Fiz com ele uma boa entrevista, publicável em qualquer veículo. Sentados em uma das salas da casa dele, um refúgio encravado na Serra da Cantareira, versamos sobre os anos 60, Bob Dylan, folk, cultura caipira, viola e romarias. Um papo pra lá de agradável. Eis que, lá pelas tantas, ele começa a falar de Xavantinho: “Era um dos maiores cantores do mundo. Um romeiro das canções. O espírito dele pulava pra fora, era só emoção. Uma voz que transcendia. Muito impressionante”.

Essa entrevista já deve ter mais de cinco anos, mas foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando soube da morte do músico Pena Branca. No DVD de Renato Teixeira, que saiu algum tempo depois de publicarmos a entrevista, este lendário caboclo subiu ao palco. Assim como já fizera com o irmão no premiado Ao Vivo em Tatuí, vencedor do Globo de Ouro de sei lá que ano. Senti a perda. Sei que a arte sobrevive, mas diante de tanta tecnologia, é difícil ver a música caipira perder um de seus guardiões. Da minha parte, pretendo ouvir muito Pena Branca e Xavantinho em meu iPod. Se lançarem algo em Blue Ray, faço questão de me deliciar com palcos sonoros e imagens estereofônicas dos clássicos da dupla.  

O caipira que via no quadro do meu avô está mais triste. O anjo capiau que às vezes grita de dentro de mim em meio a emaranhados de bytes e bits também. Chora chão de terra. Chora barro. Chora morro. Desce rio de lágrima. Arrasta pedras, peixes e flores. As violas estão mais quietas. O vento sopra pras nuvens. Voa sabiá de pena branca, voa. Voa enquanto a chuva cai lá fora.  

Registro:

Viva a mágica, Unidos da Tijuca campeã. Piada de mau gosto, Arnaud Rodrigues morto.   



Escrito por Giuliano Agmont às 02h12
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TRAVESSURAS ÀS AVESSAS

As crianças são realmente surpreendentes. Constatei isso em duas ocasiões em particular. Uma aconteceu nesse último Natal. Conforme tinha prometido a mim mesmo, vesti-me de Papai Noel. Cena, obviamente, ridícula... Não só pela fantasia comprada em uma versão piorada da Rua 25 de Março, que mal cabia no meu corpo, mas principalmente pelas gargalhadas que despertava à medida que vestia as peças. O travesseiro da barriga quase não entrou, o gorro era apertado demais, a barba denunciava por baixo dela meu cavanhaque e as calças mostraram-se muito curtas, tipo pula-brejo. Para piorar, tive de colocar óculos escuros. E, é claro, suportar um calor do cão sob aqueles trapos de lã.

Bom, afora esses pequenos detalhes, tudo transcorreu na mais perfeita normalidade, e a criançada teve a certeza de que o bom velhinho é capaz de entrar pela janela de qualquer casa mesmo com grades bem espessas. Pelo menos até o momento do susto. Foi pouco depois da despedida da celebridade da noite, já com o saco vazio. Meu mais velho subiu com a prima para o quarto onde havia me trocado e viu as roupas vermelhas estupidamente deixadas no chão. Quando me contaram, logo pensei: “Putz, a casa caiu”. Qual não foi minha surpresa ao ouvir, antes de entrar em desespero, a versão das crianças. Chocada, minha sobrinha disparou, na lata: “O Papai Noel foi embora pelado”. Contive o riso. Então, respirei fundo, olhei bem pra ela e emendei: “Pois é, tava muito calor e ele resolver tirar a roupa antes de sair”. Meu filho me olhou intrigado, mas com aquela convicção que só uma criança é capaz de ter. Ufa, estavam livres de nosso tolo ceticismo.

Passados alguns dias, meu filho me vem com outra. Temos um amigo muito peludo, tipo Toni Ramos. Para se ter uma idéia, toda vez que ele fica sem camisa alguém lança a pergunta: “Não vai tirar o pulôver?”. Por conta disso, o apelido dele virou Pêlo. Para o meu filho, Tio Pêlo. Muito bem, eis que, no tal dia, em uma conversa trivial, surgiu a pergunta: “Por que o Tio Pêlo chama Tio Pêlo?”. Minha mulher não precisou de muita habilidade para responder. Explicou que o nome dele, na verdade, é outro e que o apelido veio com a idade, por conta dos pêlos que cresceram nele ao ficar grande. O garoto demorou alguns segundos para processar a informação, mas, assim que finalizou o raciocínio, mandou a réplica sem piedade: “Mamãe, qual vai ser o meu nome quando eu crescer?”.

Sim, e ainda dizem que somos nós, os adultos, que ensinamos lições aos pequenos.



Escrito por Giuliano Agmont às 19h39
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EMBUSTE AMBIENTAL

Estou convencido de que as bases teóricas que explicam o propagado processo de aquecimento global causado pelo ser humano são falsas. Não só pelo vazamento de e-mails de cientistas britânicos que estariam boicotando os críticos dessa tese (mais detalhes, aqui). Mas também, e principalmente, porque tenho ouvido argumentos de especialistas sérios segundo os quais o mundo estaria se resfriando (veja um deles, o climatologista Luiz Carlos Molion, aqui). E mais: a contribuição do homem para o tal efeito estufa seria irrisória, assim como a influência dos gases da atmosfera para a temperatura do planeta. Na verdade, os grandes responsáveis pelas variações dos termômetros seriam os oceanos e o sol, o que me parece bastante razoável. Quanto ao degelo nos polos, a explicação teria mais a ver com correntes marítimas e fenômenos associados a elas do que com o aquecimento global. Enfim, o calor excessivo nas cidades seria explicado pela substituição da vegetação por concreto, piche, metais e plástico. Ora, se realmente o embuste for verdadeiro, estamos em maus lençóis. O que haveria por trás dos debates na Dinamarca, que nada me parecem ter de científicos? Já li a respeito de tentativas de controle da natalidade, construção de um governo mundial e inspirações totalitárias. Temo pelo futuro político da Terra. O que decidirão os tribunais internacionais que estão por vir?

Não gosto de respirar ar poluído, sinto-me corroído ao ver rios encardidos, tenho fixação por soluções que ajudem a resolver a questão do lixo, acho o consumismo uma prática nociva à saúde, sou um apaixonado praticante de trekking em reservas ecológicas e considero o debate em torno do manejo do solo fudamental para a melhora da convivência entre o homem e a natureza... Mas me recuso a integrar a massa de manobra de grupos com interesses pouco claros, que orquestram e fundamentam uma perigosa cruzada verde. A grana por trás dessa guerra e o radicalismo quase religioso dos argumentos já seriam suficientes para me deixar com a pulga atrás da orelha. Agora, ao assistir a cobertura quase panfletária da mídia em relação aos assuntos ambientais, vejo que há realmente algo de estranho nessa pseudo unanimidade. O debate ambiental está desvirtuado. Por que só tem legitimidade quem luta contra o aquecimento global? Às favas!     



Escrito por Giuliano Agmont às 13h56
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INSPIRAÇÕES FUTEBOLÍSTICAS

Penúltima rodada do Campeonato Brasileiro de 2009. Estádio Palestra Itália, São Paulo, Capital. Em campo, Palmeiras e Atlético Mineiro. Os paulistas, donos da casa, lutam pelo título e os visitantes, por uma vaga na Taça Libertadores da América. Primeiro tempo de jogo, 15 minutos, placar empatado, 1 a 1. Partida quente e decisiva.

Posicionado na metade adversária do campo, o atacante Éder Luis, do Atlético, recua a bola na fogueira para o goleiro Carini. O centroavante Wagner Love, aproveitando-se do erro, dispara em busca da inteceptação do passe, longo e perigoso. Alarmado com a bobeira generalizada e o bote do oponente, o arqueiro belo-horizontino parte para a dividida fora dos limites da grande área. No momento em que o goleador alviverde está prestes a efetuar o corte, o guarda-meta aplica um carrinho providencial e isola o perigo com o pé. Pelo menos, provisoriamente. 

A bola espirrada perpassa cinco faixas do gramado e inicia a trajetória de queda na altura do círculo central, exatamente onde está Diego Souza. Com uma passada curta, o meio campista palmeirense sincroniza o tempo do chute e arma a bomba de direita. Antes que a pelota toque o solo, o camisa 7 joga o tronco para o lado, mete uma rosca tão memorável quanto improvável e eleva a perna esquerda para contrabalançar a violência do golpe, mais ou menos como fazem os goleiros na reposição de jogo. "Tum", de primeira, na veia! A bola, que já chegou pesada, sobe... sobe muito. O estádio congela, slow motion. Um tiro por cobertura. Nem as câmeras de TV conseguem acompanhar a parábola.

Os defensores alvinegros olham incrédulos para o alto. Rendido e meio trôpego no retorno ao arco, o goleiro Carini nem sequer esboça reflexos de defesa. O zagueiro Werley, último homem, até acelera a corrida, mas breca na altura da pequena área e abre os braços, certo de que a bola sairá, como a de Pelé, em 1970. Caprichosamente, pouco mais de três segundos após o tirambaço, a esfera pinga dentro do gol, estufa as redes e vai morrer quase no ponto onde quicou. Um sem-pulo espetacular. Obra prima do futebol. Golaço histórico.

Tentei decifrar o que os lábios de Diego Souza proferiram imediatamente após a façanha. Em 1988, quando o Neto marcou de bicicleta no primeiro jogo da final do Campeonato Paulista, deu para entender na hora o que berrava o gordinho jaqueta 10 do Guarani: “Eu sou foda!”. Não consegui compreender as palavras do meia palestrino. Mas isso pouco importa. Confesso que fiquei feliz de testemunhar um lance tão bonito, mesmo sendo protagonizado por um jogador do Parmera, que tem a torcida mais doente do país, no sentido patológico da palavra.

Vi a proeza enquanto torcia pelo São Paulo contra o Goiás - recebendo mensagens de desforra via celular justamente de uma palmeirense. Nem é preciso dizer que tomamos um chocolate, 4 a 2, com outros dois golaços – menos vultuosos, diga-se –, e praticamente abandonamos a disputa pelo tetra. Apesar da decepção e do gosto azedo da derrota, sou obrigado a reconhecer que o São Paulo mereceu perder os dois últimos jogos, a despeito das estranhas decisões do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva). Goiás e Botafogo fizeram suas melhores exibições do ano contra nós. Jogamos bem, estivemos à frente no placar nas duas partidas, criamos oportunidades e lutamos até fim. Mas não deu... Agora, só um milagre!

Obviamente, estarei no Morumbi no domingo. Será o primeiro jogo dos meus filhos no estádio. Logo eles, que comemoram conquistas tricolores desde que estavam na barriga da mãe, o mais velho já em 2005. Se o título vier, precisarei tomar cuidado para não jogar os bebês alto demais após o apito final. Mas, se não vier, espero poder comemorar pelo menos um gol. Vou aplaudir de pé o time, valente e destemido, capaz de grandes feitos, protagonista de mais uma bela arrancada. Irei pela devoção à bola e ao futebol, mesmo sabendo que não temos uma equipe como aquelas que venceram nossos três mundiais.

Essa mesma bola e esse mesmo futebol que encantam o brasileiro há gerações, como se pode constatar em uma visita ao Museu do Futebol, no Pacaembu. Estive lá dia desses. Impossível não se arrepiar com o gol do Dener da Portuguesa, a defesa do Rodolfo Rodrigues pelo Santos ou o petardo do Falcão contra a Itália em 1982. Jogadas e jogadores inesquecíveis. Narrações e depoimentos históricos. Imagens eternas. Momentos únicos... Tudo isso e o negrão, como dizem os mais velhos. Recomendo!    

O resultado do Brasileirão de 2009 será menos importante do que a disputa que o precedeu. Um quebra-cabeça eletrizante de resultados, nas duas pontas da tabela. E o melhor, com alguns lampejos de bom futebol. Nada comparável ao passado. Afinal, hoje a condição física permite aos marcadores sufocar seus adversários como jamais aconteceu. Quantos segundos um jogador consegue ficar com a bola no pé até que dois ou três cheguem para pressioná-lo? Devo citar especialmente Conca, do Fluminense. Apesar de franzino, o meio campista é o regente do time, a força motriz e criativa da inacreditável campanha de recuperação no segundo turno. Em minha opinião, o melhor jogador do torneio, talvez o grande craque hoje do futebol brasileiro. Aliás, já escrevi em outra oportunidade sobre Cuca, um treinador que dispensa elogios. Tem tudo para confirmar neste fim de semana a salvação de um rebaixamento certo da equipe das Laranjeiras.

Diego Souza não deve levantar o caneco. Corre o risco até de perder a vaga para a Libertadores - o que seria maravilhoso! O título está mais para Flamengo e Internacional. Mas ele já deixou sua marca na galeria dos grandes momentos do futebol. Um gol do meio de campo, sensacional. Curiosamente, a jogada começou com o mesmo atacante que no Brasileiro do ano passado marcou pelo São Paulo contra o Vitória um gol iniciado também no círculo central. A diferença é que Éder Luis carregou a bola, fintou vários adversários e bateu na saída do goleiro. Ah, o futebol... Vamo São Paulo!



Escrito por Giuliano Agmont às 19h49
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ROCK-N´-ROLL 

Não tenho por hábito reproduzir aqui textos publicados, mas acho que este merece ser exceção. É do jornalista Jotabê Medeiros, do Estadão, que viajou a Nova York a convite do canal TNT. Foi publicado hoje, dia de Finados. Reparem que estão faltando algumas espécies desta fauna paleozóica: 

Godzillas do rock chacoalham Nova York
Você nunca viu fusões como essas, mas aconteceu e show vai ser visto no Brasil

"Quem mais estava lá?", perguntava a todo momento o taxista australiano após o concerto no Madison Square Garden. E, a cada nova resposta, ele abria a boca atônito: U2, Mick Jagger, Metallica, Ozzy Osbourne, Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Jerry Lee Lewis, Sting, Lou Reed, Buddy Guy, Aretha Franklin, Black Eyed Peas, Annie Lennox, Lenny Kravitz, Ray Davies (dos Kinks), Stevie Wonder, Crosby, Stills & Nash, Simon & Garfunkel, B.B. King, entre outra dezena de astros.

Durante duas noites, quinta e sexta-feira, o Madison Square Garden de Nova York, casa dos Yankees, assistiu ao imponderável. Na noite de sexta, logo após a apresentação inicial feita por Tom Hanks (que saudou "o gênero que mudou o mundo, dos clubes de New Orleans às praias da Califórnia", gênero feito tanto "por caminhoneiros de Memphis quanto por dândis de Nova York"), entrou em cena um mito inicial, o veterano Jerry Lee Lewis, "The Killer", cantando Great Balls of Fire, sozinho ao piano.

Jerry Lee saiu do palco quebrando uma cadeira, autêntico rebelde sem jeito do rock. Depois disso, foram se seguindo cenas oníricas, como Aretha Franklin (em forma estupenda) cantando com Annie Lennox e Lenny Kravitz e Ozzy Osbourne e o Metallica brincando de montanha-russa com o público. Parecia delirium tremens: Bono Vox e Mick Jagger cantando juntos Stuck in a Moment, do U2, e o clássico Gimme Shelter, dos Stones (com a voz feminina e as pernas de fora a cargo de Fergie, do Black Eyed Peas). Bruce Springsteen, Patti Smith e o U2 debulhando os versos "because the night belongs to lovers" e Springsteen e o U2 reinventando I Still Haven"t Found What I"m Looking For.

Parece história de pescador? Bom, foi tudo gravado para a TV. O concerto celebrava os 25 anos do Hall da Fama do Rock"n"roll, espécie de museu geriátrico do rock dos americanos - lugar em que as antigas realezas teimam em se mexer nervosamente. E você, leitor, vai ter o prazer de conferir esse choque de gigantes com os próprios olhos no dia 7 de dezembro, às 20 h, na TV do Brasil (e de outros 41 países da América Latina e Caribe; nos Estados Unidos, a HBO exibe antes, no dia 29 de novembro). É certo que as performances têm mais de 6 horas de música, e deverão ser "limadas" para a edição na TV, então muito do que se passou lá não será visto pelo espectador.

Mas não é tarefa fácil escolher o filé mignon da jornada. Por exemplo: nada será tão emocionante quanto ouvir Jeff Beck ao lado de Billy Gibbons, do ZZ Top, esmerilhando Foxy Lady, de Hendrix. Uau! Mas teve também Lou Reed com o Metallica, esfolando dois clássicos do Velvet Underground: Sweet Jane e White Light, White Heat. Difícil dizer o que o ouvinte deixaria de fora. Você deixaria de fora Jeff Beck e Sting em People Get Ready? Desprezaria Aretha Franklin e Annie Lennox cantando juntas Chain of Fools (com Annie vestindo uma camiseta com os dizeres HIV Positive)? Tiraria Iron Man ou Paranoid da junção de Metallica com Ozzy Osbourne?

Momento histórico logo na entrada: Aretha Franklin bem-humorada, a voz mais poderosa da música negra atual em seu auge, envergando um vestidão vermelho ao lado de uma memorável big band. E até dançando no palco. É para orgulhar uma testemunha, uma cena para contar aos netos. Ela cantou Make Them Hear You, de Ragtime, e depois Don"t Play That Song, Baby I Love You e até New York New York, sucessão de Frank Sinatra (mas ninguém cantou como Aretha jamais). E, é claro, seu grande hit, Respect.

Jeff Beck era para ser apenas um convidado, mas foi estrela porque o titular, Eric Clapton, cancelou sua participação. E Jeff botou para quebrar, colocou a guitarra no lugar mais alto do pódio (acompanhado de uma baixista notável, Tal Wilkenfeld, de 23 anos, que todo mundo pensava que era filha dele). Beck fez bela homenagem aos Beatles com A Day in the Life, e tocou Rice Pudding e Big Block com fagulhas nos solos de guitarra. Está renascido e melhor que nunca, vale trazer para o Brasil de novo.

O Metallica deixou todo mundo com os ouvidos zunindo. Ofereceu um belo coquetel de rock pesado, com músicas como Enter Sandman (que foi precedida de imagens no telão do jogador dos Yankess Mariano Rivera, que tem a música como seu tema da vitória), Stone Cold Crazy, For Whom the Bell Tolls e Turn the Page. O vocalista James Hetfield parecia realmente maravilhado com seus convidados, especialmente com Ray Davies, do Kinks. "Ele foi nossa escola nos primórdios dos riffs do rock", afirmou. Quando Davies deixou o palco, após cantar All Day and All of the Night, ele exclamou: "Uau, que doideira!"

O U2 foi o último a se apresentar, e já com status de superclássico. A "dica" do convidado especial da banda já começou na primeira música, Vertigo, que Bono Vox finalizou com uma inserção de It"s Only Rock"n"roll (But I Like It), dos Stones. Depois, emendou I Was Born To Be With You e logo em seguida entraram dois convidados de mãos dadas. Ninguém menos do que The Boss, Bruce Springsteen, e a diva da blank generation, Patti Smith. Eles tiveram de fazer duas vezes a mesma música, porque o microfone de Patti falhou ("Take two", brincou a cantora), mas Bono administrou bem o contratempo e terminou tudo em festa.

"O rock"n"roll trata de muitas vozes juntas unidas, trata da liberação: política, sexual, espiritual", discursou Bono, enquanto Springsteen tirava um sarro: "Vamos nos divertir um pouco com isso!", arrematou o boss. O U2 ainda cantou Misterious Ways, I Still Haven"t Found, Beautiful Day. "Se vocês amam a música, coloquem um dedo no ar", insuflou o cantor irlandês. A discurseira não serviu para nada, ficou todo mundo tentando ver quem é que iria ganhar no duelo de melhor rebolado: Mick Jagger ou Fergie. E, creiam-me, Jagger, 66 anos, dançando como uma lagarta com uma formiga nas costas, ganhou.



Escrito por Giuliano Agmont às 21h45
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MUNDO DA BOLA


 

 

Assisti à transmissão da cerimônia de anúncio da sede das Olimpíadas de 2016 durante um almoço com um amigo jornalista. Por distração, ou falta de sintonia com o espírito do brasileiro que não desiste nunca, tomei um susto quando o representante do Comitê Olímpico Internacional mostrou a plaqueta com o nome da cidade do Rio de Janeiro. Não que estivesse surpreso com o previsível resultado, mas o grito coletivo que se seguiu à confirmação do que todos naquele restaurante lotado torciam para acontecer me aturdiu. A balburdia me fez até lembrar de gols decisivos do Brasil em Copas do Mundo. Dei um pulo involuntário da cadeira e olhei assustado para a multidão de braços erguidos comemorando a decisão. Em seguida, de volta ao televisor, vi a festa em Copacabana, ainda mais efusiva. Ingênua e impulsivamente, perguntei ao meu interlocutor, que também parecia estar assustado com a cena: “Por que a festa?”.

 

Rimos um pouco e, obviamente, passamos a discutir política, enquanto Lula se abraçava aos prantos com Pelé, locupletando-se daquele sentimento de missão cumprida. O comentário mais oportuno teve um caráter metafórico, por coincidência. “Meu, o cara só nada de braçada: Copa, Pré-sal, Crise Mundial, Olimpíadas...”, disse, de improviso, com uma pobreza poética abissal, talvez pelo personagem, talvez em homenagem a César Cielo, que dias antes havia jogado no ventilador suas opiniões sobre a atuação de políticos e cartolas em relação aos nadadores brasileiros. 

 

Lula realmente é um fenômeno. “O cara”, como diria Obama. Daqui a uma década, o país terá saído de sua eterna condição de emergente para figurar entre as potências econômicas mundiais, transfigurando-se no tão famigerado porco imperialista que explora nações menos favorecidas com seus onipresentes tentáculos comerciais (quem sabe não faço um documentário sobre isso?). E ele, o companheiro presidente, certamente, surfará essa marolona de ativos políticos como bem sabe fazer.

 

É difícil imaginar aonde chegará esse ex-sindicalista, símbolo da esperança dos desvalidos. Confesso que não sei, mas admito, com amargor, que já me desencantei há tempos, antes mesmo do mensalão. Em uma conversa recente com colegas de trabalho descobri algo sobre Lula que resume sua trajetória. “Sabe aquele cara que xingava o presidente da Volkswagens na porta da fábrica e botava peões bêbados para persuadir delicadamente as pessoas a aderirem à greve?”, perguntou-me retoricamente a ex-funcionária da montadora alemã. “Pois é, ele recebia ‘bola’ dos empresários para encerrar as paralisações”. 

 

Quis saber se ela tinha como comprovar o que dizia, ou se alguém com quem trabalhou lá poderia comentar algo a respeito. Ela deu um riso maroto e disparou: “Ninguém fala sobre isso”. Retribui o sorriso e lembrei das histórias que ouvi de outra colega, esta uma veterana produtora de mercado audiovisual. Ela me falou sobre uma ex-sócia que só andava com dinheiro vivo na pasta: “Cash!”. A intenção era pagar em espécie aos que conseguiam os trabalhos para a empresa delas. Nem é preciso dizer que boa parte do orçamento provinha de campanhas políticas. Hoje, as duas praticamente não se falam, por divergências filosóficas.  

 

Também ouvi recentemente confidências sobre as práticas de um empresário de São Paulo. Os contratos de vulto assinados pela companhia da qual é presidente trazem a reboque gordas gratificações não contabilizadas, indiretamente transferidas para suas contas bancárias. “Ele ganha ‘bola’ direto”, contou-me uma bem informada amiga. Juntando os pontos, sou obrigado a reconhecer a natureza sórdida do mundo dos negócios e da política. Para um operário da informação, acostumado a primar pela qualidade do trabalho, é estranho considerar que as coisas são mais simples do que parecem. Ou seja, que tudo é uma questão de grana, e ponto.

 

Na conversa com meu amigo, pouco antes do anúncio do Rio como cidade-sede das Olimpíadas de 2016, ouvira dele algumas lamentações em relação aos descaminhos do mercado editorial. Ele havia acabado de constatar o mal desempenho de um produto ao qual se dedicara, flertando durante meses com o movediço universo executivo. Conhecendo seu perfil paladino, achei melhor não lembrá-lo de que seria mais fácil ter molhado a mão de um ou outro para conseguir o que queria. Mais ou menos como acontecerá nos próximos seis anos com a farra das obras tanto para a Copa quanto para os Jogos Olímpicos. Teremos, sim, profundas transformações urbanísticas nas grandes capitais do país forjadas por expansões nos modais de transporte. Talvez tenhamos até um grande salto de qualidade em quesitos como infraestrutura e serviços. O único senão é que o preço da maioria das benfeitorias (se é que estádios podem ser classificados como tal) será um pouco mais caro do que os valores de mercado. Em resumo, resignaremo-nos com levas e levas de pagamentos indébitos. Para ser mais claro: superfaturamentos, subornos e propinas. Afinal, somos de um país em que o sujeito já nasce sabendo dar firulas, com uma bola no pé e a outra no bolso.      



Escrito por Giuliano Agmont às 13h01
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PROVOCADOR MIDIÁTICO 

 

 

Depois de cinco árduos anos de trabalho e sem patrocínio formal, um amigo meu de Faculdade acaba de finalizar seu primeiro documentário longa-metragem. Lembro-me como se fosse hoje de a gente filmando velhinhos dando piruetas em bailes de terceira idade para um trabalho sei lá de que matéria. Ele garante que tem o vídeo até hoje e sempre diz que vai me mostrar, mas estou esperando faz mais de uma década e meia... Agora, passado tanto tempo, é gratificante vê-lo assinando a direção de um trabalho que promete corroer as entranhas da comunicação social brasileira. “O Abraço Corporativo” estréia na 33ª Mostra Internacional de São Paulo – e até concorre na Competição Brasil. Pretendo assistir à sessão de quarta-feira, dia 28, às 19h50, no MIS (Avenida Europa), que será seguida por um, presumo, caloroso debate. Se der, depois, pretendo tomar umas brejas com nossa velha galera. Parabéns, Kauffman! Estamos todos orgulhosos do picareta que adorava polemizar as fermentadas discussões no “Cauby” após a aula.   



Escrito por Giuliano Agmont às 13h27
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BEM-VINDA DE VOLTA BAIXINHA

Minha irmã caçula acaba de voltar de Nova York. Desta vez, em caráter definitivo. Morou lá alguns anos, não sei exatamente quantos. O suficiente para nos deixar órfãos de suas gargalhadas. O marido publicitário ficou, fazendo uns frilas, mas logo deve despencar por estas bandas. 

De olho nas oportunidades do Brasil, a agora textile design (chique demais!) chega esbanjando virtudes. É o que se pode chamar mulher contemporânea. Inteligente, bonita, descolada, comunicativa, antenada e... talentosa: uma artista nata! Veja neste link seu portfolio. Que belezura, não? Formada lá fora, a danada já assinou até estampas de coleções de moda - repare no nome da estilista, não poderia ser mais adequado. A gravura aí de cima, aliás, é criação dela.

Estou feliz com a perspectiva de reatar o convívio com a baixinha, eu e os dois bebês. Vamos dar boas risadas, fazer piqueniques e tirar muitas fotografias. Quem sabe ela não cria umas estampas personalizadas para as superfícies aqui de casa...



Escrito por Giuliano Agmont às 23h32
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