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O INCRÍVEL 7

 

Tive um pressentimento ruim durante o jogo do Brasil contra o México na primeira fase da Copa da FIFA de 2014. Diante da má qualidade do futebol apresentado pelo time escalado, montado e treinado por Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira, e das goleadas impostas por Alemanha e Holanda a Portugal e Espanha, respectivamente, senti um frio na barriga. Com dentes cerrados à mostra, imaginei uma derrota vexatória frente à equipe orquestrada por Tony Kroos depois de uma evolução aos trancos e barrancos até a fase semifinal do mundial. Tentei em vão afugentar meus pensamentos. Agoniado, cheguei a mentalizar números: “Quatro... Talvez cinco”. Porém, aos 29 minutos da fatídica partida contra os alemães, um tanto atônito, percebi que nem no mais aflitivo momento desse meu pesadelo seria capaz de fantasiar um cenário como aquele que se desenhava no estádio do Mineirão. Era a realidade sobrepujando-se à imaginação. Finda a peleja, um misto de raiva e constrangimento. 


O cabalístico sete desnorteou a pátria de chuteiras. Com trabalho duro, toque de bola ritmado e humildade, o simpático selecionado germânico, simbolicamente trajado com seu uniforme rubro-negro alusivo à clássica indumentária do Flamengo de Zico, estabeleceu uma acachapante vitória contra o Brasil ao pintar o sete no placar da arena. Abatidos como um felino que perdeu suas vidas ao ser devorado com fúria pelas cabeças de uma Hidra de Lerna, os brasileiros experimentaram as pragas do Egito na forma de um arco-íris de gols. Um gol para cada dia da semana, um gol para cada nota musical, um gol para cada pecado capital. E ficou barato... 

A inexplicável derrota esclarece muita coisa sobre nosso desempenho provinciano nesta Copa de 2014. A soberba e a vaidade do técnico brasileiro, infladas pela responsabilidade do cargo em um momento tão delicado, implodiram um patrimônio construído com os pés durante 100 anos por atletas como Pelé e Garrincha. O choque de realidade dessa derrota promete povoar por décadas o inconsciente de torcedores com a autoestima estraçalhada. Honestamente, fiquei sem palavras para explicar a meus filhos tamanha humilhação em nosso próprio país. Pane, apagão e branco são palavras condescendentes para dizer que o time amarelou e expôs sua inferioridade tática e técnica de maneira ultrajante. Sem querer crucificar o suplente do capitão Thiago Silva – até porque as falhas decisivas foram cometidas por David Luiz, Fernandinho e Marcelo –, vivemos um inferno de Dante naquela tarde. A morte de Di Stéfano na véspera, dia 7/7/14, parece ter sido um prenúncio da hecatombe de Belo Horizonte. 

Falando de bola, assistimos a uma seleção montada para se defender, sem criatividade e com um ataque risível, jogando na base do “balão, abafa”. Na opinião de gente que acompanha futebol há décadas, o pior escrete verde-amarelo de todos os tempos, mesmo tendo chegado à semifinal. Os dois jogadores de frente fizeram um gol, sim, apenas um gol em seis jogos. Ainda assim, o único tento convertido pela dupla aconteceu ante a pior seleção do torneio, Camarões – e Hulk errou sua cobrança na disputa de pênaltis contra o Chile. Aliás, antes aquela bola na trave tivesse entrado... O mais frustrante ao escrutinar este time de Felipão é constatar que o meia deixou de ser um jogador que arma para se tornar um que desarma, criando um buraco na mais nobre região do gramado, o meio-campo. Igualmente revoltante é pensar que nomes como o de Ganso não foram sequer cogitados para integrar o elenco da seleção. Com exceção do poderio defensivo do time (pelo menos contra adversários mais fracos) e dos lampejos de craque de Neymar, que contagiaram o país em meio a uma atmosfera eufórica em torno de uma Copa que deu certo, tivemos uma atuação bisonha, difícil de digerir, e pagamos um preço alto demais pela teimosia de um treinador ultrapassado. O que estava em jogo não era a classificação para a final, mas a dignidade do nosso futebol diante da mais bem preparada equipe da competição. Nossos chacras, cada uma dos sete, estão em desequilíbrio. O Brasil deixou de ser um bicho de sete cabeças. 




Escrito por Giuliano Agmont às 18h25
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