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O PESO DA BOLHA

Comprei meu primeiro disco de rock aos 10 anos de idade. Acho que foi em uma loja de rua do Centro de São Paulo. Era o segundo LP dos Paralamas do Sucesso, intitulado “O passo de Lui”. Na época, às vésperas do Rock in Rio, já curtia superficialmente bandas como Iron Maiden, Van Halen, AC/DC, Kiss e Rush, por influência de primos e amigos. Poucas semanas depois, a dias do histórico megaevento, pedi de aniversário para um amigo do meu pai, o Faísca, que corria feito flecha atrás da bola pela ponta direita, outros dois discos do ascendente rock nacional. O principal deles era “Maior abandonado”, do Barão Vermelho. Lembro-me como se fosse hoje da foto da contracapa, com os integrantes da banda tomando uma geral da polícia em um muro pichado. O segundo era um do Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, acho que o primeiro, com a estonteante Paula Toller na capa.

Nem é preciso dizer que quase furei as três bolachas na vitrola de casa. Não por acaso, quando vi Herbert Vianna no palco do Rock in Rio, ainda de dia, sabia quase todas as letras dos Paralamas na ponta da língua. O mesmo aconteceu com as pedradas de Cazuza. Na ocasião, estava em uma colônia de férias no Guarujá, no litoral paulista, e via o resumo de cada dia do festival pela TV Globo no fim da noite, quase sempre na sala de jogos. Também me recordo dos flashs ao vivo dados por Nelson Motta e Glória Maria, com caras novinhas! Infelizmente, ainda era um pirralho para estar lá, embora tenha ficado revoltado com a proibição imposta por meus pais. Seja como for, admito que a música tema do evento ainda me causa arrepios: “Que a vida começasse agora, e o mundo fosse nosso outra vez...”.  

Quando soube da morte de Ezequiel Neves, mentor do Barão, pensei imediatamente no meu velho long play e seus 25 anos de prateleira. Lendo algumas matérias sobre o jornalista e produtor musical, tive a certeza de que meus instintos pré-adolescentes estavam certos ao identificar algo novo no som de Cazuza, Frejat, Guto Goffi e Maurício Barros. Ele era conhecido como Zeca Jagger, por sua devoção ao líder do Rolling Stones, e entendia de rock como poucos. Infelizmente, só soube de sua existência ao ver o filme biográfico sobre Cazuza, mesmo assim, sem grande entusiasmo, talvez pelos excessos nos trejeitos.

O que eu não esperava era me deparar com textos dele em uma pequena loja de CDs da Rua Teodoro Sampaio, aqui em São Paulo, um reduto de instrumentistas atraídos pelas intermináveis vitrines com guitarras, baixos, metais, baterias e partituras. Tenho garimpado trabalhos de bandas de rock nacional há algum tempo e estava procurando os primeiros discos do Joelho de Porco. Eis que, na prateleira, vi outras duas pérolas relançadas pelo Museu do Disco: o único álbum de estúdio da banda O Peso e um belo trabalho de 1977 do conjunto A Bolha. Na contracapa, a surpresa: resenhas de Ezequiel Neves!  

No disco “É proibido fumar”, de A Bolha, Zeca evoca um de seus pseudônimos, Ângela Dust, para contestar esta provocante frase escrita por ninguém menos do que Paulo Francis: “Não posso acreditar que quem goste de rock seja animal vertebrado”. Em resumo, ela diz que o rock é filosófico e inteligente. Mas, no texto da resenha, o crítico admite, parodiando seu ídolo Mick Jagger: “It´s only rock n´ roll, but I like it”. No álbum “Em busca do tempo perdido”, de O Peso, o produtor revela que aprendeu tudo o que sabe sobre rhythm n´ blues justamente com o guitarrista e compositor da banda, o americano Gabriel O’Meara. Conta que recebeu as “lições” quando era editor musical da versão brasileira, e então pirata, da revista Rolling Stone, em 1971.  

Tem gente que gosta de acompanhar as novidades do mercado fonográfico na boca do forno. É um pessoal antenado, sempre de olhos, e ouvidos, em bandas de garagem dos mais remotos guetos do planeta logo que despontam. Eu prefiro descobrir coisas inéditas do passado. Inéditas para mim, obviamente.  É impressionante a riqueza musical dos anos 60 e 70, principalmente quando se fala de rock. Se o assunto for blues, então, dá para voltar ainda mais no tempo. Este é o meu barato, curtir as músicas de uma época que não vivi, mas que produziu o melhor do gênero. Nesse ponto, a internet é quase um Deus. Afinal, só um milagre para ressuscitar dinossauros. Aproveito para fazer uma remissão à revista Poeira Zine, clique aqui. Conheci está verdadeira enciclopédia do rock quando Zappa saiu na capa da terceira edição.



Escrito por Giuliano Agmont às 02h02
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