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O FUTEBOL E OS ESPAÇOS

Assisti à partida entre Brasil e Holanda de meias para minha mulher não me chamar de pé frio. É que estava com a pulga atrás da orelha em relação a nosso alaranjado adversário e, ao sair de manhã para passear com meu cachorro, soltei alguns indevidos comentários: “Não sei não... Algo me diz que não vai dar, mesmo com um time melhor. Queria estar mais confiantes. Mas vou torcer pelo Brasil!”. Obviamente, ouvi descomposturas dos vizinhos. “Isso é coisa que se diga?”, esbravejou um deles. “Não, nós vamos ganhar”, decretou o outro.

Assim como fizera nos primeiros jogos do Brasil, pus na Bandeirantes, já que Luciano do Valle e Neto pareciam estar dando sorte, apesar das gafes do já ultrapassado narrador esportivo que alavancou o vôlei do país. Os bebês ficaram com a babá, tocando corneta com a molecada da rua, e minha mulher trouxe batata Pringles com tubaína, combinação explosiva. O Brasil começou muito bem, marcando em cima, tocando bem a bola, soberano em campo.

O gol de Robinho com um passe magistral de Felipe Melo parecia ser o prenúncio de um massacre, assim como acontecera com o Chile. Contra os sul-americanos, aliás, o time comandado por Dunga se comportou como um implacável predador. Neutralizou a presa só com o olhar, como alguns índios ainda fazem até hoje. A seleção de Valdivia mostrou-se incapaz de esboçar reação diante da bem postada equipe verde e amarela e acabou abocanhada sem força para fugir, como uma zebra ferida por leões.   

Quando Kaká quase meteu no ângulo depois de excelente jogada de Robinho pela esquerda e ótima assistência de Luís Fabiano, tive a certeza de que estava enganado. Parecia evidente que minha previsão inicial (veja no último post) de que a Holanda seria a campeã desta Copa caia por terra. Pelo menos até o início do segundo tempo. Logo que o árbitro japonês autorizou o recomeço da peleja, minha mulher já começou a gritar no meu ouvido: “Corre, marca... O que está acontecendo?”. Ela que quase mergulhou na TV para fazer um gol de cabeça no primeiro tempo em um cruzamento não me lembro de quem.

Disse que o time estava só tirando um pouco o pé porque não aguentaria correr o que correu no primeiro tempo o jogo todo. Mais alguns minutos e... Pum! Veio o castigo. Uma bola despretensiosa alçada na área termina com uma patacoada. O goleiro Júlio César se choca com o volante Felipe Melo no ar e um atrapalha o outro. Gol contra, e o que parecia fácil tornou-se duvidoso. O mais impressionante é que a Holanda não teve grandes méritos pelo desfecho da jogada. Mais que uma falha, o que aconteceu ali foi puro azar. Vi o lance depois pela câmera lenta e notei que o arqueiro brasileiro acerta uma cotovelada no rosto do meio-campista quando a bola estava praticamente na cabeça deste e nos punhos daquele, uma cena esdrúxula e inédita.

De repente, o jogo mudou. A Holanda continuou pouco agressiva, mas passou a tomar conta da partida, sem nenhum brilho, acrescente-se. As estrelas começaram a aparecer, com mais toque de bola, e o Brasil sentiu o golpe. A caça parecia ter se reerguido depois de uma distração do caçador. Dito e feito. Em outra bobeada do setor defensivo, o jogador mais baixo do ataque holandês, Sneijder, cabeceou para as redes: 2 a 1. Atônito, olhava para a televisão sem acreditar no que estava vendo. Não era justo. O placar não refletia o que tinha sido o jogo até então. Eis que Felipe Melo, o nome da partida, tornou ainda mais difícil o que parecia impossível. Deu um pisão em Robben e acabou expulso.

Dali para frente, entramos no “bumba meu boi”. Em alguns momentos, cheguei a achar que empataríamos. Ledo engano. Desta vez, foi o Brasil que não demonstrou poder de reação, embora tenha caído em pé. Quando Daniel Alves acertou a barreira naquela última falta, joguei a toalha. Ainda perplexo, fiquei trocando de canal para ouvir as análises de diferentes comentaristas. Júnior e Casagrande estavam mais confusos do que eu. Neto ficou enaltecendo a Holanda e descendo o sarrafo no Felipe Melo, bem aquém de suas tiradas habituais. Preferi não ouvir os dois da Sportv, André Rizek e Paulo César Vasconcellos, fracos para comentar jogos do Brasil em comparação com Lédio Carmona, por exemplo. Péssima escolha da emissora. Emerson chorou diante das câmeras e não conseguiu falar. Milton Neves lembrou os meninos da Vila, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho. Datena achou que não era hora de crucificar ninguém, embora tenha dito que o Brasil treinou o treinador. E Vampeta falou que daria uns safanões no volante esquentadinho do Brasil no vestiário.  

Só comecei a entender o que realmente tinha acontecido quando Denílson deu sua versão para os fatos. Não me lembro das palavras, mas ele falou algo sobre "pegada". Depois, finalmente, ouvi Paulo Roberto Falcão, o protagonista da cena mais eletrizante que vi em uma Copa do Mundo: o gol de empate do Brasil contra a Itália em 82 e a comemoração do Rei de Roma com todas aquelas veias saltando dos braços e do pescoço. Apesar de considerar seus comentários sempre meio enfadonhos, sou obrigado a reconhecer que ele matou a charada, assim como minha mulher, esta sem perceber. O nó na garganta não tinha nada a ver com o Dunga e sua teimosia. Ou com a ausência de Ronaldinho e Ganso. O que pegou foi que o Brasil teve o jogo na mão e o deixou escapar sem entender muito bem como.

Eis o grande detalhe da partida. No primeiro tempo, o Brasil marcou em cima, sem dar chance de respiro para os adversários. No segundo, porém, afrouxou a pegada e ofereceu espaço para os holandeses. Esse o erro capital do time. Não que os holandeses tenham aproveitado muito bem a oportunidade, mas se sentiram mais à vontade em campo e ampliaram seu tempo de posse de bola. Como a sorte acabou dando uma ajudinha, o destino foi o que todos conhecem. A Holanda não mereceu vencer tampouco o Brasil mereceu perder. Em nenhum momento, os laranjas ofereceram riscos à meta de Júlio César. Os gols saíram sem querer.      

Mesmo sem banco, praticamos o melhor futebol pragmático da Copa. Mostramos por que temos a melhor defesa do mundo. Até Gilberto Silva jogou bem. Felipe Melo, quem diria, se não fosse um cabeça de vento, poderia ser lembrado como um volante acima da média para os atuais padrões. Assim como Ramires, que tomou um segundo cartão amarelo idiota e ficou fora do último jogo. Sem esquecer de Elano, com alguns lampejos de futebol arte. Demos azar e não conseguimos levantar após o primeiro tombo. Ponto. Copa do Mundo é isso. Um jogo decide tudo. Claro que faltou o que todos sabiam, um jogador que chama a responsabilidade para si em momentos adversos. Kaká provou que está longe de ser esse cara. Infelizmente, os são-paulinos já sabiam disso. Ele é o craque do quase. Faltou também um pouco de equilíbrio emocional, Dunga e seus comandados estavam muito nervosos, talvez despreparados psicologicamente para a competição ou excessivamente obstinados. Mas fizeram o que acharam ser certo, e não estavam muito errados, tanto que perdemos pela falta de pragmatismo na marcação.

Embora tenha cravado a Holanda como campeã da Copa da África do Sul, vou torcer agora por Argentina, Alemanha e Espanha, que mostraram um futebol muito mais cativante. Espero que vença a que jogar mais bonito. No frigir dos ovos, talvez tenha sido melhor sair nas quartas. Imagine tomar um chocolate da Argentina na final, com show de Messi. Nunca mais teríamos moral para gozar nossos hermanos. Maradona, então, ficaria insuportável. Mas são coisas do futebol. E vai que o Uruguai é campeão. 



Escrito por Giuliano Agmont às 16h56
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