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DUNGA E OS GANSOS

Participei da cobertura dos treinos da seleção brasileira no Centro de Treinamentos do Atlético Paranaense, em Curitiba. Nada muito empolgante. Estava lá a serviço de um dos patrocinadores do time para mostrar os bastidores da preparação do Brasil para a Copa. Afora o circo midiático, chamou minha atenção a presença de 11 gansos no gramado ao lado da sala de imprensa montada no CT do Caju. Pelas circunstâncias, pareceu-me provocação. Não dá para ter certeza. Também achei graça da declaração de um inflamado torcedor rubro-negro do lado de fora do bloqueio em torno dos jogadores: “O Dunga é um exemplo para a saúde do Brasil... Não usa craque!”.

É difícil explicar a implicância de parte da torcida com o atual treinador da seleção (pelo menos para quem não acompanha futebol). Dunga assumiu o time do Brasil sem nunca antes ter sido técnico de futebol e, contrariando as expectativas, ganhou tudo o que podia. Gaúcho que é, montou um time coeso e competitivo. Excluiu as laranjas podres e restabeleceu o espírito de seleção no grupo. Preparou um esquema tático robusto, conseguiu dos jogadores comprometimento cego e chega para a Copa como favorito ao título. Tem grandes chances, inclusive, de vencer com sobras, embora eu não acredite nisso.

Na coletiva em que anunciou os 23 nomes que iriam para a África do Sul, deixando de fora Ganso e Ronaldinho, Dunga fez uma comparação que nos ajuda a entender o perfil deste time brasileiro que luta pelo hexa. Ele equiparou seu trabalho ao de um executivo. Falou que a seleção é como uma empresa que busca resultados. Existem, de fato, inúmeros pontos convergentes entre a lógica corporativa e as premissas do futebol. Afinal, a competição é o pano de fundo para ambas. Ainda assim, penso que são duas coisas completamente diferentes, sobretudo quando o assunto é Copa do Mundo.

O sucesso do futebol está em três de seus mais nobres ingredientes: a paixão, a magia e a arte! São pilares que evocam os urros primitivos da alma humana. Para quem sabe apreciar as peripécias do bola, os lances encantam mais do que o jogo. E é justamente aí que começam as minhas divergências com Dunga. Aparentemente, ele se imbuiu do objetivo de vencer a qualquer preço, nem que para isso tenha de prescindir da criatividade e da inteligência dentro de campo. É claro que o talento perdeu espaço no futebol moderno, de forte marcação, grande velocidade e muito contato físico. Mas isso não significa que deva ser relegado.

Ganso, obviamente, não pode ser comparado a Pelé, o atleta do século XX. Basta ver algumas jogadas do Rei do Futebol para constatar que nem Maradona o destronaria. Porém, não seria exagero compará-lo a Pita, outro histórico camisa 10 do Santos. Recordo-me dele na final do campeonato paulista de 1985, jogando pelo São Paulo. Com 11 anos de idade, já frequentava o estádio do Morumbi. Detrás do gol, assisti àquele time montado pelo saudoso Cilinho se movimentando em bloco. Quando entrou, acho que no segundo tempo (se não me engando, ele e Fofão não se bicavam), Pita mais parecia um maestro regendo sua orquestra. E que orquestra! Além de Oscar e Dario Pereyra na zaga, desfilavam em campo Falcão, Müller e Careca. No final, vencemos por dois tentos a um e iniciamos uma série histórica de conquistas, que inclui o Brasileiro de 86 e o Paulista de 87, este contra o curintinha.  

Dar chapéu no meio de campo, enfiar bolas em profundidade, fazer lançamentos longos e enxergar companheiros livres entre os zagueiros são só alguns dos atributos dos craques. Paulo Henrique, o Ganso, protagoniza pelo menos um ou dois desses lances quase todo jogo. De quebra, ainda marca gols memoráveis. Sem falar da liderança que exerce dentro das quatro linhas. Isso com 20 anos de idade. Fazia tempo que não surgia um jogador assim no Brasil, clássico. Nem Rivaldo tampouco Raí tinham o requinte desse menino. Mesmo Alex, que o inspirou, tinha menos presença em campo. Com pontuais diferenças, ele faz lembrar nomes como Zenon, Éverton, Edu Marangon (que estava na Portuguesa naquela final) e o próprio Pita. Aliás, Pita era o reserva de Zico na Copa de 1982. Lembro-me disso porque só não consegui completar aquele álbum do (chiclete) Ping-Pong por causa dele. Faltou apenas a figurinha do então meia-esquerda do Santos. E ninguém tinha, nem para trocar muito menos para disputar no bafo (pois é, naquela época ainda “batíamos” figurinha). É um crime histórico tirar desse menino a chance de jogar ao menos três Copas no auge da forma, mesmo que a primeira fosse na reserva, como Kaká, Ronaldinho e Pelé. Em 2014, provavelmente, será o 10 do Brasil (ou, se Kaká ainda estiver bem, o 8).

Cresci vendo meu pai jogar futebol. Ele era um volante clássico. No clube que frequentávamos, recebeu o apelido de Afonsinho, por suas semelhanças com jogador que inspirou o documentário “Passe livre”: ambos tinham barba e falavam muito em campo. O velho marcava e desarmava bem, mas sua principal virtude era sair jogando com a bola no pé, sem chutões, só trocando passes. Além disso, sabia e gostava de fazer lançamentos longos para os atacantes. Não me lembro de tê-lo visto fazer gols, mas isso não diminuia a admiriação por sua categoria: deixava o campo sem sujar o calção e as meias. Por influência dele, também me tornei um volante. Assim, aos oito anos, já treinava no campo de terra lá do clube e despontava como um promissor cabeça-de-área.

 

Na época, meu treinador era ninguém menos do que Bauer, o monstro do Maracanã, ícone do futebol arte. Dizem os mais velhos, na década de 40, ao lado de Ruy e Noronha, com a camisa do São Paulo, Bauer escrevia poesia sobre a grama. Não por acaso encantou o mundo nas Copas de 50 e 54, regendo o meio-campo da seleção brasileira. Apesar dos traços do tempo, pude ver naquele ex-jogador de olhar cansado os movimentos de um verdadeiro mito. Com ele, aprendi a matar a bola, a passá-la e, principalmente, a me colocar em campo. Deveria também ter prestado mais atenção à maneira segura e requintada como conduzia a bola, driblando um, dois e, por vezes, três cones. Kaká e suas arrancadas jamais chegarão a seus pés.

Todo esse preâmbulo para dizer que me sinto absolutamente à vontade para falar de volantes. No segundo dia de coletiva lá no CT do Caju, os pentacampeões Gilberto Silva e Kleberson enfrentaram a imprensa. Eu estava ali, na primeira fila, coçando-me para fazer uma pergunta, mas achei melhor ficar longe do microfone, acho que criaria constrangimentos desnecessários. Além do que, não estava ali para isso. Preferi escrever este texto. A certa altura, alguém questionou os jogadores sobre o excesso de volantes no time e o capitão Gilberto Silva desconversou, disse que essa polêmica nunca acabará. O problema é que não se trata de polêmica. Este é um fato: a seleção é um time de volantes, e volantes sem criatividade, sem elegância, volantes de contenção. Bauer deve estar se revirando no túmulo. O time só tem um meia, Kaká. Forçando um pouco, Ramires e Elano. O resto é volante.    

Se Kaká jogar o que sabe e pelo menos um dos atacantes convocados fizer o mesmo, o time de Dunga deve voltar da África do Sul com o caneco. Um cala-boca retumbante aos críticos. Mas, de novo, corremos o risco de termos um time vencedor, só que sem brilho. Até porque Kaká, embora seja um excepcional  jogador (as imagens do então reserva do tricolor marcando dois gols contra o Botafogo na final da Taça Rio-São Paulo de 2002 no Morumbi continuam vivas na  memória, mesmo tendo visto tudo do outro lado do campo), não exerce aquela liderança dos grandes meias do passado. E não é por ter pinta de bom moço ou insistir em bradar suas verdades religiosas aos quatro ventos, mas, sim, pela falta de brio. É um jogador que “foge do pau”. Teve a pajorra de não disputar uma final de campeonato contra o Corinthians, nem vestiu a camisa. Nessa hora, com o perdão do exagero, tem de entrar contundido e sair de maca. Pior, no jogo amistoso do Brasil no Haiti, não foi por exigência do clube. E ainda: na Copa de 2006, até ameaçou se levantar contra a balbúrdia que se instalara na concentração, mas, de uma hora para outra, acanhou-se e sumiu dentro e fora de campo. Para complicar, pode estar "bichado". Ouvi dizer que só está aguentando o ritmo por conta de corticóides e que, logo após a Copa, será operado. Luís Fabiano é o inverso, diga-se. Nessa mesma final contra o Corinthians, em 2003, fez dois golaços no segundo tempo e quase viramos o jogo. Seria um título histórico. Mas também está fora de ritmo.

Pelo que entendi, o substituto de Kaká é outro ex-são-paulino, Júlio Baptista. Considero-o um injustiçado. Estava no estádio no dia de sua estréia. Lembro-me perfeitamente de perguntar a meu colega de arquibancada quem era aquele negão. Pelo tamanho, tiva a impressão de que se tratava de um zagueiro. De repente, ele mata a bola no peito e emenda um passe de três dedos. “Caralho”, pensei. “O que é isso?”. Com o tempo, vi que minhas expectativas iniciais em torno do jogador não se confirmaram, mas na seleção ele mostrou ser uma peça importante, que entrou e decidiu. Seu passe de calcanhar no último amistoso mostra que tem categoria. Mas não como Ganso. Também acho que as críticas em torno do Josué são exageradas. Sem ele, o São Paulo não teria vencido o mundial interclubes de 2005. Ele desarma, dribla e sabe tocar a bola. Mas não como Bauer. Talvez Dunga pudesse usar um pouco de criatividade para encaixar o Ganso no time sem mexer em sua coerência. Só fico em dúvida se ele e seu fiel escudeiro, Jorginho, têm essa criatividade. As jogadas protagonizadas por  Bauer nos anos 40 e 50 reluzem mais na memória dos antigos torcedores do que a taça erguida por Dunga em 1994.

Recentemente escrevi uma matéria sobre o cérebro humano. Durante minha pesquisa, li algo interessante a respeito de nossa memória. Falava da importância de estímulos sensoriais e emocionais para o cumprimento de funções cognitivas. Dizia que as lembranças costumam vir a partir de experiências que mexam com nossa afetividade, e nossos sentidos. Em 1982, estava na casa de um amigo do meu pai, no interior de São Paulo, quando Paulo Rossi acabou com o sonho do melhor time que vi jogar. Dezesseis anos depois, com 20 anos, assisti à final da Copa em algum lugar, mas não consigo me lembrar onde. Recordo claramente dos gritos “É tetra!” do meloso Galvão Bueno e de seu abraço desajeitado com Pelé, só não consigo lembrar onde eu estava. Isso talvez mostre a diferença do que sinto em relação a essas duas seleções. Uma pragmática, objetiva, burocrática, mas com um gênio na arte de marcar gols lá na frente, o baixinho Romário. Certamente, muito pouco perto da constelação de craques liderados por Zico e Sócrates e comandados pelo mestre Telê Santana.

Não me importo de perder. Desde que tenhamos um time que jogue bonito, de preferência, por música. As safras de jogadores capazes de encher nossos olhos com lances tão belos quanto imprevisíveis nascem de baciada nos campinhos do Brasil. Por que renegar essa vocação do nosso futebol? Concordo que a coerência faz diferença no exercício da liderança. Só que em nome dela não se pode apunhalar o que de mais nobre nos resta nesta era de futebol tipo exportação: a paixão do torcedor menino que constrói com magia e arte o imaginário coletivo da bola. É atrás dessa vocação que estamos todas as vezes que ligamos a TV para ver um jogo ou compramos um ingresso para ir ao estádio... Espero, honestamente, estar exagerando. Quem sabe os comandados de Dunga nos reservem gratas surpresas com jogadas espetaculares e lances de emocionar o garotinho dentro de cada um de nós.

Acho que a Holanda será a campeã do mundo de 2010. Torço para que a Argentina jogue tudo o que sabe e adoraria ver a Espanha chegando à final com o futebol fino que está praticando. Quem sabe até Inglaterra ou Alemanha não resolvem fazer apresentações de gala. Mas, como bem lembrou Tostão em uma recente declaração, previsões não são para entendidos. Ele conta que seu desempenho no bolão da última Copa foi medíocre. E que a vencedora foi a copeira da firma. “Quem entende de Copa é a copeira”, escreveu. Acho que é isso, já abusei das palavras. Hoje é aniversário do meu filho mais velho e amanhã será a festa dele junto com a do menor. Vou dormir para receber bem os amigos. Parabéns meninos e vamos torcer pelo Brasil. As bandeirinhas e os desenhos da rua já estão lá. Os uniformes e as cornetas também. Voa canarinho, voa...  



Escrito por Giuliano Agmont às 23h59
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