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PILANTRAGEM EM PRETO E BRANCO   

Entrevistei Jorge Ben Jor em meados da década de 1990 por ocasião do anúncio de seu contrato com a Sony Music. Minha primeira missão de rua como integrante da equipe de produção do Show da Manhã, da rádio Jovem Pan AM, aqui de São Paulo. Antes dele, havia gravado um papo quase descontraído com João Nogueira, por telefone. A despeito de minha inexperiência como repórter, as duas matérias foram ao ar na íntegra. Ou seja, cumpriram bem seu papel, e até recebi elogios. Mas, hoje percebo, estava definitivamente despreparado para realizar ambas as entrevistas.

 

A primeira, com o sambista, serviu como teste. Passei com louvor, só omiti que até então nunca tinha ouvido falar do criador da Casa do Samba. Jorge Ben eu conhecia. Ele estava em um de seus auges da carreira. Tinha ido a alguns shows dele antes da entrevista, sempre tirando casquinha da mulherada em transe naquele clima de País Tropical. Também já estava cansado de ouvir W/Brasil nas rádios. Mas sabia muito pouco sobre sua história.

 

Lendo o livro “A vida e o veneno de Wilson Simonal”, de Ricardo Alexandre, tive a confirmação de minha completa ignorância. Lá pelas tantas o autor escreve: “E Simonal, sem ânimo e sem espaço artístico, olhava à distância a febre em torno do amigo flamenguista. Acompanhava cada entrevista de Ben Jor, na vã esperança de que o velho compositor usasse de seu enorme espaço na mídia para lembrar da voz que lançara ‘País tropical’ e ‘Zazuera’ tantos anos antes. Sem mais o que fazer, Simonal sentava-se de cuecas na sala de estar da casa de sua nova mulher, Sandra Cerqueira, pegava o telefone, e mais uma vez, tentava ligar para o gabinete do presidente da República atrás de novos documentos que comprovassem sua inocência das acusações de ser um delator dos tempos da ditadura”.

 

Senti-me um estúpido ao decodificar esse parágrafo. Logo imaginei Wilson Simonal de cueca na sala esperando que este energúmeno repórter fizesse uma pergunta sobre ele, o que seria absolutamente pertinente. Pena que, na oportunidade, o nome daquele que foi um dos maiores cantores que o Brasil já produziu não significava nada para mim. Talvez já tivesse ouvido algo dele com meu pai, mas certamente seria incapaz de associá-lo ao entrevistado. O porta-voz da pilantragem ainda era um ilustre desconhecido para o foca que conversava com Jorge Ben naquela tarde.

 

Wilson Simonal era um negro metido a besta. Andava nos trinques e só tinha carro importado na garagem. Era ligado a uma multinacional norte-americana (a Shell, assim como os Mutantes) e vivia de conversinha com agentes do Dops. Pagou um preço alto por isso, maior até do que outro negro, o goleiro Barbosa, da seleção de 50, responsável pelo Maracanazo. Acabou covardemente triturado pelos patrulheiros ideológicos, a “esquerda festiva”, como gostava de dizer, e experimentou o ostracismo na mesma intensidade em que fizera o povo inteiro cantar anos antes, mais até do que Roberto Carlos.

 

Uma acusação sem provas destruiu a carreira do rei do Beco das Garrafas. Jornalistas, sem checar informações, transformaram Wilson Simonal em dedo-duro. A pecha pegou e o acompanhou até seu último suspiro. Infelizmente, perdi a chance de ressuscitar Simonal em vida. Tudo bem, ainda nem tinha meu diploma, mas isso não é justificativa. Informação é informação. Só me resta agora assistir ao documentário sobre o autor de “Tributo a Martin Luther King" e prestar-lhe esta devida homenagem.



Escrito por Giuliano Agmont às 03h05
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