Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, VILA APARECIDA IVONE, Homem, de 36 a 45 anos



Arquivos

Outros links
 As últimas
 Pablito na Austrália
 br.br101.org - china
 Projeto Bagagem
 Blog do Josias
 Astronauta solitário
 Geneton Moraes Neto
 Poeira Zine




Vicissitudes
 


VOA PENA, VOA

Tinha pouco mais de 14 anos e estava tão eufórico quanto assustado. Lembro-me de entrar pelo portão de imprensa do Morumbi para transmitir a semifinal do Campeonato Paulista de 1987 entre São Paulo e Palmeiras. Como as cabines de rádio eram exclusivas às grandes emissoras, ficamos de pé em baias dispostas nos fundos do anel inferior do estádio, quase na altura do campo, vendo os jogadores horizontalmente. Éramos três na cobertura da partida: meu tio narrando o jogo, um repórter dando detalhes do gramado e eu tecendo comentários esporádicos, como convidado especial. Naquele dia o goleiro Zetti, então da equipe porcina, engoliu um peru histórico após uma falta cobrada por Neto do meio da rua, e o tricolor avançou à final, vencendo posteriormente a disputa contra o Corinthians (que delícia!). 

Dois anos depois, em 1989, já mais esperto, fiz outro jogo a convite do irmão mais novo do meu pai. Foi no estádio da Central Brasileira de Cotia, à margem da Rodovia Raposo Tavares, aqui em São Paulo. O árbitro era Dulcídio Wanderley Boschilia, um PM que encarava qualquer jogador na porrada. No time da Central de Cotia, outros dois nomes de peso: Wladimir, ex-lateral do Corinthians, e Luís Pereira, ex-zagueiro do Palmeiras e da seleção brasileira – este último, aliás, foi quem acabou com a sequencia de mais de 1.200 minutos sem sofrer gol do arqueiro Zetti pouco antes da derrota para o São Paulo no Paulistão de 1987 (jogando pelo Santo André).

Nas duas ocasiões, meu desempenho deixou bastante a desejar. Enquanto comentava as jogadas, meu tio, com olhos arregalados, fazia para mim movimentos circulares e rápidos com a mão direita. Na hora, fiquei com a clara impressão de que estava abafando e deveria prosseguir com a ladainha, mas só depois vim a saber que o objetivo da mímica era me fazer falar mais rápido e de forma, digamos, menos travada.    

Além de servir de estímulo para minha futura carreira de jornalista, essas experiências estabeleceram vínculos entre mim e meu tio. Não por acaso, depois de muitos anos, praticamente uma década e meia, voltamos a trabalhar juntos, desta vez em um jornal sobre romeiros. Na época, estava desempregado e achei que poderia ajudá-lo, talvez retribuir o empurrãozinho que recebera. 

Assim, duas ou três vezes por semana, lá ia eu de trem e ônibus para Pirapora do Bom Jesus. O choque cultural é tremendo. Ali, à margem de uma megalópole, o interior ainda respira, mesmo com os descaminhos dos adolescentes. E foi fechando uma das edições do jornal que conheci o cantor e compositor Renato Teixeira. Fiz com ele uma boa entrevista, publicável em qualquer veículo. Sentados em uma das salas da casa dele, um refúgio encravado na Serra da Cantareira, versamos sobre os anos 60, Bob Dylan, folk, cultura caipira, viola e romarias. Um papo pra lá de agradável. Eis que, lá pelas tantas, ele começa a falar de Xavantinho: “Era um dos maiores cantores do mundo. Um romeiro das canções. O espírito dele pulava pra fora, era só emoção. Uma voz que transcendia. Muito impressionante”.

Essa entrevista já deve ter mais de cinco anos, mas foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando soube da morte do músico Pena Branca. No DVD de Renato Teixeira, que saiu algum tempo depois de publicarmos a entrevista, este lendário caboclo subiu ao palco. Assim como já fizera com o irmão no premiado Ao Vivo em Tatuí, vencedor do Globo de Ouro de sei lá que ano. Senti a perda. Sei que a arte sobrevive, mas diante de tanta tecnologia, é difícil ver a música caipira perder um de seus guardiões. Da minha parte, pretendo ouvir muito Pena Branca e Xavantinho em meu iPod. Se lançarem algo em Blue Ray, faço questão de me deliciar com palcos sonoros e imagens estereofônicas dos clássicos da dupla.  

O caipira que via no quadro do meu avô está mais triste. O anjo capiau que às vezes grita de dentro de mim em meio a emaranhados de bytes e bits também. Chora chão de terra. Chora barro. Chora morro. Desce rio de lágrima. Arrasta pedras, peixes e flores. As violas estão mais quietas. O vento sopra pras nuvens. Voa sabiá de pena branca, voa. Voa enquanto a chuva cai lá fora.  

Registro:

Viva a mágica, Unidos da Tijuca campeã. Piada de mau gosto, Arnaud Rodrigues morto.   



Escrito por Giuliano Agmont às 02h12
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]