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INSPIRAÇÕES FUTEBOLÍSTICAS

Penúltima rodada do Campeonato Brasileiro de 2009. Estádio Palestra Itália, São Paulo, Capital. Em campo, Palmeiras e Atlético Mineiro. Os paulistas, donos da casa, lutam pelo título e os visitantes, por uma vaga na Taça Libertadores da América. Primeiro tempo de jogo, 15 minutos, placar empatado, 1 a 1. Partida quente e decisiva.

Posicionado na metade adversária do campo, o atacante Éder Luis, do Atlético, recua a bola na fogueira para o goleiro Carini. O centroavante Wagner Love, aproveitando-se do erro, dispara em busca da inteceptação do passe, longo e perigoso. Alarmado com a bobeira generalizada e o bote do oponente, o arqueiro belo-horizontino parte para a dividida fora dos limites da grande área. No momento em que o goleador alviverde está prestes a efetuar o corte, o guarda-meta aplica um carrinho providencial e isola o perigo com o pé. Pelo menos, provisoriamente. 

A bola espirrada perpassa cinco faixas do gramado e inicia a trajetória de queda na altura do círculo central, exatamente onde está Diego Souza. Com uma passada curta, o meio campista palmeirense sincroniza o tempo do chute e arma a bomba de direita. Antes que a pelota toque o solo, o camisa 7 joga o tronco para o lado, mete uma rosca tão memorável quanto improvável e eleva a perna esquerda para contrabalançar a violência do golpe, mais ou menos como fazem os goleiros na reposição de jogo. "Tum", de primeira, na veia! A bola, que já chegou pesada, sobe... sobe muito. O estádio congela, slow motion. Um tiro por cobertura. Nem as câmeras de TV conseguem acompanhar a parábola.

Os defensores alvinegros olham incrédulos para o alto. Rendido e meio trôpego no retorno ao arco, o goleiro Carini nem sequer esboça reflexos de defesa. O zagueiro Werley, último homem, até acelera a corrida, mas breca na altura da pequena área e abre os braços, certo de que a bola sairá, como a de Pelé, em 1970. Caprichosamente, pouco mais de três segundos após o tirambaço, a esfera pinga dentro do gol, estufa as redes e vai morrer quase no ponto onde quicou. Um sem-pulo espetacular. Obra prima do futebol. Golaço histórico.

Tentei decifrar o que os lábios de Diego Souza proferiram imediatamente após a façanha. Em 1988, quando o Neto marcou de bicicleta no primeiro jogo da final do Campeonato Paulista, deu para entender na hora o que berrava o gordinho jaqueta 10 do Guarani: “Eu sou foda!”. Não consegui compreender as palavras do meia palestrino. Mas isso pouco importa. Confesso que fiquei feliz de testemunhar um lance tão bonito, mesmo sendo protagonizado por um jogador do Parmera, que tem a torcida mais doente do país, no sentido patológico da palavra.

Vi a proeza enquanto torcia pelo São Paulo contra o Goiás - recebendo mensagens de desforra via celular justamente de uma palmeirense. Nem é preciso dizer que tomamos um chocolate, 4 a 2, com outros dois golaços – menos vultuosos, diga-se –, e praticamente abandonamos a disputa pelo tetra. Apesar da decepção e do gosto azedo da derrota, sou obrigado a reconhecer que o São Paulo mereceu perder os dois últimos jogos, a despeito das estranhas decisões do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva). Goiás e Botafogo fizeram suas melhores exibições do ano contra nós. Jogamos bem, estivemos à frente no placar nas duas partidas, criamos oportunidades e lutamos até fim. Mas não deu... Agora, só um milagre!

Obviamente, estarei no Morumbi no domingo. Será o primeiro jogo dos meus filhos no estádio. Logo eles, que comemoram conquistas tricolores desde que estavam na barriga da mãe, o mais velho já em 2005. Se o título vier, precisarei tomar cuidado para não jogar os bebês alto demais após o apito final. Mas, se não vier, espero poder comemorar pelo menos um gol. Vou aplaudir de pé o time, valente e destemido, capaz de grandes feitos, protagonista de mais uma bela arrancada. Irei pela devoção à bola e ao futebol, mesmo sabendo que não temos uma equipe como aquelas que venceram nossos três mundiais.

Essa mesma bola e esse mesmo futebol que encantam o brasileiro há gerações, como se pode constatar em uma visita ao Museu do Futebol, no Pacaembu. Estive lá dia desses. Impossível não se arrepiar com o gol do Dener da Portuguesa, a defesa do Rodolfo Rodrigues pelo Santos ou o petardo do Falcão contra a Itália em 1982. Jogadas e jogadores inesquecíveis. Narrações e depoimentos históricos. Imagens eternas. Momentos únicos... Tudo isso e o negrão, como dizem os mais velhos. Recomendo!    

O resultado do Brasileirão de 2009 será menos importante do que a disputa que o precedeu. Um quebra-cabeça eletrizante de resultados, nas duas pontas da tabela. E o melhor, com alguns lampejos de bom futebol. Nada comparável ao passado. Afinal, hoje a condição física permite aos marcadores sufocar seus adversários como jamais aconteceu. Quantos segundos um jogador consegue ficar com a bola no pé até que dois ou três cheguem para pressioná-lo? Devo citar especialmente Conca, do Fluminense. Apesar de franzino, o meio campista é o regente do time, a força motriz e criativa da inacreditável campanha de recuperação no segundo turno. Em minha opinião, o melhor jogador do torneio, talvez o grande craque hoje do futebol brasileiro. Aliás, já escrevi em outra oportunidade sobre Cuca, um treinador que dispensa elogios. Tem tudo para confirmar neste fim de semana a salvação de um rebaixamento certo da equipe das Laranjeiras.

Diego Souza não deve levantar o caneco. Corre o risco até de perder a vaga para a Libertadores - o que seria maravilhoso! O título está mais para Flamengo e Internacional. Mas ele já deixou sua marca na galeria dos grandes momentos do futebol. Um gol do meio de campo, sensacional. Curiosamente, a jogada começou com o mesmo atacante que no Brasileiro do ano passado marcou pelo São Paulo contra o Vitória um gol iniciado também no círculo central. A diferença é que Éder Luis carregou a bola, fintou vários adversários e bateu na saída do goleiro. Ah, o futebol... Vamo São Paulo!



Escrito por Giuliano Agmont às 19h49
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