As crianças são realmente surpreendentes. Constatei isso em duas ocasiões em particular. Uma aconteceu nesse último Natal. Conforme tinha prometido a mim mesmo, vesti-me de Papai Noel. Cena, obviamente, ridícula... Não só pela fantasia comprada em uma versão piorada da Rua 25 de Março, que mal cabia no meu corpo, mas principalmente pelas gargalhadas que despertava à medida que vestia as peças. O travesseiro da barriga quase não entrou, o gorro era apertado demais, a barba denunciava por baixo dela meu cavanhaque e as calças mostraram-se muito curtas, tipo pula-brejo. Para piorar, tive de colocar óculos escuros. E, é claro, suportar um calor do cão sob aqueles trapos de lã.
Bom, afora esses pequenos detalhes, tudo transcorreu na mais perfeita normalidade, e a criançada teve a certeza de que o bom velhinho é capaz de entrar pela janela de qualquer casa mesmo com grades bem espessas. Pelo menos até o momento do susto. Foi pouco depois da despedida da celebridade da noite, já com o saco vazio. Meu mais velho subiu com a prima para o quarto onde havia me trocado e viu as roupas vermelhas estupidamente deixadas no chão. Quando me contaram, logo pensei: “Putz, a casa caiu”. Qual não foi minha surpresa ao ouvir, antes de entrar em desespero, a versão das crianças. Chocada, minha sobrinha disparou, na lata: “O Papai Noel foi embora pelado”. Contive o riso. Então, respirei fundo, olhei bem pra ela e emendei: “Pois é, tava muito calor e ele resolver tirar a roupa antes de sair”. Meu filho me olhou intrigado, mas com aquela convicção que só uma criança é capaz de ter. Ufa, estavam livres de nosso tolo ceticismo.
Passados alguns dias, meu filho me vem com outra. Temos um amigo muito peludo, tipo Toni Ramos. Para se ter uma idéia, toda vez que ele fica sem camisa alguém lança a pergunta: “Não vai tirar o pulôver?”. Por conta disso, o apelido dele virou Pêlo. Para o meu filho, Tio Pêlo. Muito bem, eis que, no tal dia, em uma conversa trivial, surgiu a pergunta: “Por que o Tio Pêlo chama Tio Pêlo?”. Minha mulher não precisou de muita habilidade para responder. Explicou que o nome dele, na verdade, é outro e que o apelido veio com a idade, por conta dos pêlos que cresceram nele ao ficar grande. O garoto demorou alguns segundos para processar a informação, mas, assim que finalizou o raciocínio, mandou a réplica sem piedade: “Mamãe, qual vai ser o meu nome quando eu crescer?”.
Sim, e ainda dizem que somos nós, os adultos, que ensinamos lições aos pequenos.
Estou convencido de que as bases teóricas que explicam o propagado processo de aquecimento global causado pelo ser humano são falsas. Não só pelo vazamento de e-mails de cientistas britânicos que estariam boicotando os críticos dessa tese (mais detalhes, aqui). Mas também, e principalmente, porque tenho ouvido argumentos de especialistas sérios segundo os quais o mundo estaria se resfriando (veja um deles, o climatologista Luiz Carlos Molion, aqui). E mais: a contribuição do homem para o tal efeito estufa seria irrisória, assim como a influência dos gases da atmosfera para a temperatura do planeta. Na verdade, os grandes responsáveis pelas variações dos termômetros seriam os oceanos e o sol, o que me parece bastante razoável. Quanto ao degelo nos polos, a explicação teria mais a ver com correntes marítimas e fenômenos associados a elas do que com o aquecimento global. Enfim, o calor excessivo nas cidades seria explicado pela substituição da vegetação por concreto, piche, metais e plástico. Ora, se realmente o embuste for verdadeiro, estamos em maus lençóis. O que haveria por trás dos debates na Dinamarca, que nada me parecem ter de científicos? Já li a respeito de tentativas de controle da natalidade, construção de um governo mundial e inspirações totalitárias. Temo pelo futuro político da Terra. O que decidirão os tribunais internacionais que estão por vir?
Não gosto de respirar ar poluído, sinto-me corroído ao ver rios encardidos, tenho fixação por soluções que ajudem a resolver a questão do lixo, acho o consumismo uma prática nociva à saúde, sou um apaixonado praticante de trekking em reservas ecológicas e considero o debate em torno do manejo do solo fudamental para a melhora da convivência entre o homem e a natureza... Mas me recuso a integrar a massa de manobra de grupos com interesses pouco claros, que orquestram e fundamentam uma perigosa cruzada verde. A grana por trás dessa guerra e o radicalismo quase religioso dos argumentos já seriam suficientes para me deixar com a pulga atrás da orelha. Agora, ao assistir a cobertura quase panfletária da mídia em relação aos assuntos ambientais, vejo que há realmente algo de estranho nessa pseudo unanimidade. O debate ambiental está desvirtuado. Por que só tem legitimidade quem luta contra o aquecimento global? Às favas!
Penúltima rodada do Campeonato Brasileiro de 2009. Estádio Palestra Itália, São Paulo, Capital. Em campo, Palmeiras e Atlético Mineiro. Os paulistas, donos da casa, lutam pelo título e os visitantes, por uma vaga na Taça Libertadores da América. Primeiro tempo de jogo, 15 minutos, placar empatado, 1 a 1. Partida quente e decisiva.
Posicionado na metade adversária do campo, o atacante Éder Luis, do Atlético, recua a bola na fogueira para o goleiro Carini. O centroavante Wagner Love, aproveitando-se do erro, dispara em busca da inteceptação do passe, longo e perigoso. Alarmado com a bobeira generalizada e o bote do oponente, o arqueiro belo-horizontino parte para a dividida fora dos limites da grande área. No momento em que o goleador alviverde está prestes a efetuar o corte, o guarda-meta aplica um carrinho providencial e isola o perigo com o pé. Pelo menos, provisoriamente.
A bola espirrada perpassa cinco faixas do gramado e inicia a trajetória de queda na altura do círculo central, exatamente onde está Diego Souza. Com uma passada curta, o meio campista palmeirense sincroniza o tempo do chute e arma a bomba de direita. Antes que a pelota toque o solo, o camisa 7 joga o tronco para o lado, mete uma rosca tão memorável quanto improvável e eleva a perna esquerda para contrabalançar a violência do golpe, mais ou menos como fazem os goleiros na reposição de jogo. "Tum", de primeira, na veia! A bola, que já chegou pesada, sobe... sobe muito. O estádio congela, slow motion. Um tiro por cobertura. Nem as câmeras de TV conseguem acompanhar a parábola.
Os defensores alvinegros olham incrédulos para o alto. Rendido e meio trôpego no retorno ao arco, o goleiro Carini nem sequer esboça reflexos de defesa. O zagueiro Werley, último homem, até acelera a corrida, mas breca na altura da pequena área e abre os braços, certo de que a bola sairá, como a de Pelé, em 1970. Caprichosamente, pouco mais de três segundos após o tirambaço, a esfera pinga dentro do gol, estufa as redes e vai morrer quase no ponto onde quicou. Um sem-pulo espetacular. Obra prima do futebol. Golaço histórico.
Tentei decifrar o que os lábios de Diego Souza proferiram imediatamente após a façanha. Em 1988, quando o Neto marcou de bicicleta no primeiro jogo da final do Campeonato Paulista, deu para entender na hora o que berrava o gordinho jaqueta 10 do Guarani: “Eu sou foda!”. Não consegui compreender as palavras do meia palestrino. Mas isso pouco importa. Confesso que fiquei feliz de testemunhar um lance tão bonito, mesmo sendo protagonizado por um jogador do Parmera, que tem a torcida mais doente do país, no sentido patológico da palavra.
Vi a proeza enquanto torcia pelo São Paulo contra o Goiás - recebendo mensagens de desforra via celular justamente de uma palmeirense. Nem é preciso dizer que tomamos um chocolate, 4 a 2, com outros dois golaços – menos vultuosos, diga-se –, e praticamente abandonamos a disputa pelo tetra. Apesar da decepção e do gosto azedo da derrota, sou obrigado a reconhecer que o São Paulo mereceu perder os dois últimos jogos, a despeito das estranhas decisões do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva). Goiás e Botafogo fizeram suas melhores exibições do ano contra nós. Jogamos bem, estivemos à frente no placar nas duas partidas, criamos oportunidades e lutamos até fim. Mas não deu... Agora, só um milagre!
Obviamente, estarei no Morumbi no domingo. Será o primeiro jogo dos meus filhos no estádio. Logo eles, que comemoram conquistas tricolores desde que estavam na barriga da mãe, o mais velho já em 2005. Se o título vier, precisarei tomar cuidado para não jogar os bebês alto demais após o apito final. Mas, se não vier, espero poder comemorar pelo menos um gol. Vou aplaudir de pé o time, valente e destemido, capaz de grandes feitos, protagonista de mais uma bela arrancada. Irei pela devoção à bola e ao futebol, mesmo sabendo que não temos uma equipe como aquelas que venceram nossos três mundiais.
Essa mesma bola e esse mesmo futebol que encantam o brasileiro há gerações, como se pode constatar em uma visita ao Museu do Futebol, no Pacaembu. Estive lá dia desses. Impossível não se arrepiar com o gol do Dener da Portuguesa, a defesa do Rodolfo Rodrigues pelo Santos ou o petardo do Falcão contra a Itália em 1982. Jogadas e jogadores inesquecíveis. Narrações e depoimentos históricos. Imagens eternas. Momentos únicos... Tudo isso e o negrão, como dizem os mais velhos. Recomendo!
O resultado do Brasileirão de 2009 será menos importante do que a disputa que o precedeu. Um quebra-cabeça eletrizante de resultados, nas duas pontas da tabela. E o melhor, com alguns lampejos de bom futebol. Nada comparável ao passado. Afinal, hoje a condição física permite aos marcadores sufocar seus adversários como jamais aconteceu. Quantos segundos um jogador consegue ficar com a bola no pé até que dois ou três cheguem para pressioná-lo? Devo citar especialmente Conca, do Fluminense. Apesar de franzino, o meio campista é o regente do time, a força motriz e criativa da inacreditável campanha de recuperação no segundo turno. Em minha opinião, o melhor jogador do torneio, talvez o grande craque hoje do futebol brasileiro. Aliás, já escrevi em outra oportunidade sobre Cuca, um treinador que dispensa elogios. Tem tudo para confirmar neste fim de semana a salvação de um rebaixamento certo da equipe das Laranjeiras.
Diego Souza não deve levantar o caneco. Corre o risco até de perder a vaga para a Libertadores - o que seria maravilhoso! O título está mais para Flamengo e Internacional. Mas ele já deixou sua marca na galeria dos grandes momentos do futebol. Um gol do meio de campo, sensacional. Curiosamente, a jogada começou com o mesmo atacante que no Brasileiro do ano passado marcou pelo São Paulo contra o Vitória um gol iniciado também no círculo central. A diferença é que Éder Luis carregou a bola, fintou vários adversários e bateu na saída do goleiro. Ah, o futebol... Vamo São Paulo!
Não tenho por hábito reproduzir aqui textos publicados, mas acho que este merece ser exceção. É do jornalista Jotabê Medeiros, do Estadão, que viajou a Nova York a convite do canal TNT. Foi publicado hoje, dia de Finados. Reparem que estão faltando algumas espécies desta fauna paleozóica:
Godzillas do rock chacoalham Nova York Você nunca viu fusões como essas, mas aconteceu e show vai ser visto no Brasil
"Quem mais estava lá?", perguntava a todo momento o taxista australiano após o concerto no Madison Square Garden. E, a cada nova resposta, ele abria a boca atônito: U2, Mick Jagger, Metallica, Ozzy Osbourne, Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Jerry Lee Lewis, Sting, Lou Reed, Buddy Guy, Aretha Franklin, Black Eyed Peas, Annie Lennox, Lenny Kravitz, Ray Davies (dos Kinks), Stevie Wonder, Crosby, Stills & Nash, Simon & Garfunkel, B.B. King, entre outra dezena de astros.
Durante duas noites, quinta e sexta-feira, o Madison Square Garden de Nova York, casa dos Yankees, assistiu ao imponderável. Na noite de sexta, logo após a apresentação inicial feita por Tom Hanks (que saudou "o gênero que mudou o mundo, dos clubes de New Orleans às praias da Califórnia", gênero feito tanto "por caminhoneiros de Memphis quanto por dândis de Nova York"), entrou em cena um mito inicial, o veterano Jerry Lee Lewis, "The Killer", cantando Great Balls of Fire, sozinho ao piano.
Jerry Lee saiu do palco quebrando uma cadeira, autêntico rebelde sem jeito do rock. Depois disso, foram se seguindo cenas oníricas, como Aretha Franklin (em forma estupenda) cantando com Annie Lennox e Lenny Kravitz e Ozzy Osbourne e o Metallica brincando de montanha-russa com o público. Parecia delirium tremens: Bono Vox e Mick Jagger cantando juntos Stuck in a Moment, do U2, e o clássico Gimme Shelter, dos Stones (com a voz feminina e as pernas de fora a cargo de Fergie, do Black Eyed Peas). Bruce Springsteen, Patti Smith e o U2 debulhando os versos "because the night belongs to lovers" e Springsteen e o U2 reinventando I Still Haven"t Found What I"m Looking For.
Parece história de pescador? Bom, foi tudo gravado para a TV. O concerto celebrava os 25 anos do Hall da Fama do Rock"n"roll, espécie de museu geriátrico do rock dos americanos - lugar em que as antigas realezas teimam em se mexer nervosamente. E você, leitor, vai ter o prazer de conferir esse choque de gigantes com os próprios olhos no dia 7 de dezembro, às 20 h, na TV do Brasil (e de outros 41 países da América Latina e Caribe; nos Estados Unidos, a HBO exibe antes, no dia 29 de novembro). É certo que as performances têm mais de 6 horas de música, e deverão ser "limadas" para a edição na TV, então muito do que se passou lá não será visto pelo espectador.
Mas não é tarefa fácil escolher o filé mignon da jornada. Por exemplo: nada será tão emocionante quanto ouvir Jeff Beck ao lado de Billy Gibbons, do ZZ Top, esmerilhando Foxy Lady, de Hendrix. Uau! Mas teve também Lou Reed com o Metallica, esfolando dois clássicos do Velvet Underground: Sweet Jane e White Light, White Heat. Difícil dizer o que o ouvinte deixaria de fora. Você deixaria de fora Jeff Beck e Sting em People Get Ready? Desprezaria Aretha Franklin e Annie Lennox cantando juntas Chain of Fools (com Annie vestindo uma camiseta com os dizeres HIV Positive)? Tiraria Iron Man ou Paranoid da junção de Metallica com Ozzy Osbourne?
Momento histórico logo na entrada: Aretha Franklin bem-humorada, a voz mais poderosa da música negra atual em seu auge, envergando um vestidão vermelho ao lado de uma memorável big band. E até dançando no palco. É para orgulhar uma testemunha, uma cena para contar aos netos. Ela cantou Make Them Hear You, de Ragtime, e depois Don"t Play That Song, Baby I Love You e até New York New York, sucessão de Frank Sinatra (mas ninguém cantou como Aretha jamais). E, é claro, seu grande hit, Respect.
Jeff Beck era para ser apenas um convidado, mas foi estrela porque o titular, Eric Clapton, cancelou sua participação. E Jeff botou para quebrar, colocou a guitarra no lugar mais alto do pódio (acompanhado de uma baixista notável, Tal Wilkenfeld, de 23 anos, que todo mundo pensava que era filha dele). Beck fez bela homenagem aos Beatles com A Day in the Life, e tocou Rice Pudding e Big Block com fagulhas nos solos de guitarra. Está renascido e melhor que nunca, vale trazer para o Brasil de novo.
O Metallica deixou todo mundo com os ouvidos zunindo. Ofereceu um belo coquetel de rock pesado, com músicas como Enter Sandman (que foi precedida de imagens no telão do jogador dos Yankess Mariano Rivera, que tem a música como seu tema da vitória), Stone Cold Crazy, For Whom the Bell Tolls e Turn the Page. O vocalista James Hetfield parecia realmente maravilhado com seus convidados, especialmente com Ray Davies, do Kinks. "Ele foi nossa escola nos primórdios dos riffs do rock", afirmou. Quando Davies deixou o palco, após cantar All Day and All of the Night, ele exclamou: "Uau, que doideira!"
O U2 foi o último a se apresentar, e já com status de superclássico. A "dica" do convidado especial da banda já começou na primeira música, Vertigo, que Bono Vox finalizou com uma inserção de It"s Only Rock"n"roll (But I Like It), dos Stones. Depois, emendou I Was Born To Be With You e logo em seguida entraram dois convidados de mãos dadas. Ninguém menos do que The Boss, Bruce Springsteen, e a diva da blank generation, Patti Smith. Eles tiveram de fazer duas vezes a mesma música, porque o microfone de Patti falhou ("Take two", brincou a cantora), mas Bono administrou bem o contratempo e terminou tudo em festa.
"O rock"n"roll trata de muitas vozes juntas unidas, trata da liberação: política, sexual, espiritual", discursou Bono, enquanto Springsteen tirava um sarro: "Vamos nos divertir um pouco com isso!", arrematou o boss. O U2 ainda cantou Misterious Ways, I Still Haven"t Found, Beautiful Day. "Se vocês amam a música, coloquem um dedo no ar", insuflou o cantor irlandês. A discurseira não serviu para nada, ficou todo mundo tentando ver quem é que iria ganhar no duelo de melhor rebolado: Mick Jagger ou Fergie. E, creiam-me, Jagger, 66 anos, dançando como uma lagarta com uma formiga nas costas, ganhou.
Assisti à transmissão da cerimônia de anúncio da sede das Olimpíadas de 2016 durante um almoço com um amigo jornalista. Por distração, ou falta de sintonia com o espírito do brasileiro que não desiste nunca, tomei um susto quando o representante do Comitê Olímpico Internacional mostrou a plaqueta com o nome da cidade do Rio de Janeiro. Não que estivesse surpreso com o previsível resultado, mas o grito coletivo que se seguiu à confirmação do que todos naquele restaurante lotado torciam para acontecer me aturdiu. A balburdia me fez até lembrar de gols decisivos do Brasil em Copas do Mundo. Dei um pulo involuntário da cadeira e olhei assustado para a multidão de braços erguidos comemorando a decisão. Em seguida, de volta ao televisor, vi a festa em Copacabana, ainda mais efusiva. Ingênua e impulsivamente, perguntei ao meu interlocutor, que também parecia estar assustado com a cena: “Por que a festa?”.
Rimos um pouco e, obviamente, passamos a discutir política, enquanto Lula se abraçava aos prantos com Pelé, locupletando-se daquele sentimento de missão cumprida. O comentário mais oportuno teve um caráter metafórico, por coincidência. “Meu, o cara só nada de braçada: Copa, Pré-sal, Crise Mundial, Olimpíadas...”, disse, de improviso, com uma pobreza poética abissal, talvez pelo personagem, talvez em homenagem a César Cielo, que dias antes havia jogado no ventilador suas opiniões sobre a atuação de políticos e cartolas em relação aos nadadores brasileiros.
Lula realmente é um fenômeno. “O cara”, como diria Obama. Daqui a uma década, o país terá saído de sua eterna condição de emergente para figurar entre as potências econômicas mundiais, transfigurando-se no tão famigerado porco imperialista que explora nações menos favorecidas com seus onipresentes tentáculos comerciais (quem sabe não faço um documentário sobre isso?). E ele, o companheiro presidente, certamente, surfará essa marolona de ativos políticos como bem sabe fazer.
É difícil imaginar aonde chegará esse ex-sindicalista, símbolo da esperança dos desvalidos. Confesso que não sei, mas admito, com amargor, que já me desencantei há tempos, antes mesmo do mensalão. Em uma conversa recente com colegas de trabalho descobri algo sobre Lula que resume sua trajetória. “Sabe aquele cara que xingava o presidente da Volkswagens na porta da fábrica e botava peões bêbados para persuadir delicadamente as pessoas a aderirem à greve?”, perguntou-me retoricamente a ex-funcionária da montadora alemã. “Pois é, ele recebia ‘bola’ dos empresários para encerrar as paralisações”.
Quis saber se ela tinha como comprovar o que dizia, ou se alguém com quem trabalhou lá poderia comentar algo a respeito. Ela deu um riso maroto e disparou: “Ninguém fala sobre isso”. Retribui o sorriso e lembrei das histórias que ouvi de outra colega, esta uma veterana produtora de mercado audiovisual. Ela me falou sobre uma ex-sócia que só andava com dinheiro vivo na pasta: “Cash!”. A intenção era pagar em espécie aos que conseguiam os trabalhos para a empresa delas. Nem é preciso dizer que boa parte do orçamento provinha de campanhas políticas. Hoje, as duas praticamente não se falam, por divergências filosóficas.
Também ouvi recentemente confidências sobre as práticas de um empresário de São Paulo. Os contratos de vulto assinados pela companhia da qual é presidente trazem a reboque gordas gratificações não contabilizadas, indiretamente transferidas para suas contas bancárias. “Ele ganha ‘bola’ direto”, contou-me uma bem informada amiga. Juntando os pontos, sou obrigado a reconhecer a natureza sórdida do mundo dos negócios e da política. Para um operário da informação, acostumado a primar pela qualidade do trabalho, é estranho considerar que as coisas são mais simples do que parecem. Ou seja, que tudo é uma questão de grana, e ponto.
Na conversa com meu amigo, pouco antes do anúncio do Rio como cidade-sede das Olimpíadas de 2016, ouvira dele algumas lamentações em relação aos descaminhos do mercado editorial. Ele havia acabado de constatar o mal desempenho de um produto ao qual se dedicara, flertando durante meses com o movediço universo executivo. Conhecendo seu perfil paladino, achei melhor não lembrá-lo de que seria mais fácil ter molhado a mão de um ou outro para conseguir o que queria. Mais ou menos como acontecerá nos próximos seis anos com a farra das obras tanto para a Copa quanto para os Jogos Olímpicos. Teremos, sim, profundas transformações urbanísticas nas grandes capitais do país forjadas por expansões nos modais de transporte. Talvez tenhamos até um grande salto de qualidade em quesitos como infraestrutura e serviços. O único senão é que o preço da maioria das benfeitorias (se é que estádios podem ser classificados como tal) será um pouco mais caro do que os valores de mercado. Em resumo, resignaremo-nos com levas e levas de pagamentos indébitos. Para ser mais claro: superfaturamentos, subornos e propinas. Afinal, somos de um país em que o sujeito já nasce sabendo dar firulas, com uma bola no pé e a outra no bolso.
Depois de cinco árduos anos de trabalho e sem patrocínio formal, um amigo meu de Faculdade acaba de finalizar seu primeiro documentário longa-metragem. Lembro-me como se fosse hoje de a gente filmando velhinhos dando piruetas em bailes de terceira idade para um trabalho sei lá de que matéria. Ele garante que tem o vídeo até hoje e sempre diz que vai me mostrar, mas estou esperando faz mais de uma década e meia... Agora, passado tanto tempo, é gratificante vê-lo assinando a direção de um trabalho que promete corroer as entranhas da comunicação social brasileira. “O Abraço Corporativo” estréia na 33ª Mostra Internacional de São Paulo – e até concorre na Competição Brasil. Pretendo assistir à sessão de quarta-feira, dia 28, às 19h50, no MIS (Avenida Europa), que será seguida por um, presumo, caloroso debate. Se der, depois, pretendo tomar umas brejas com nossa velha galera. Parabéns, Kauffman! Estamos todos orgulhosos do picareta que adorava polemizar as fermentadas discussões no “Cauby” após a aula.
Minha irmã caçula acaba de voltar de Nova York. Desta vez, em caráter definitivo. Morou lá alguns anos, não sei exatamente quantos. O suficiente para nos deixar órfãos de suas gargalhadas. O marido publicitário ficou, fazendo uns frilas, mas logo deve despencar por estas bandas.
De olho nas oportunidades do Brasil, a agora textile design (chique demais!) chega esbanjando virtudes. É o que se pode chamar mulher contemporânea. Inteligente, bonita, descolada, comunicativa, antenada e... talentosa: uma artista nata! Veja neste link seu portfolio. Que belezura, não? Formada lá fora, a danada já assinou até estampas de coleções de moda - repare no nome da estilista, não poderia ser mais adequado. A gravura aí de cima, aliás, é criação dela.
Estou feliz com a perspectiva de reatar o convívio com a baixinha, eu e os dois bebês. Vamos dar boas risadas, fazer piqueniques e tirar muitas fotografias. Quem sabe ela não cria umas estampas personalizadas para as superfícies aqui de casa...
Os personagens da semana caprichosamente têm algo em comum: esta parte da barba que cresce sobre o lábio superior. O primeiro sumiu. O segundo está preso. O terceiro quase levou um tiro. O quarto quase deu um tiro. O quinto ameaçou sair. E o sexto não sai nem a pau. A realidade pode ser surpreendente... Salve Dalí.
Dia desses, levando meu filho para algum lugar, resolvi apresentá-lo mais uma vez ao som de Raul. Normalmente, no carro, eu decido o que vamos ouvir. Mas ele não costuma dar muita bola. Aparentemente ainda prefere as músicas dele. Coisas como "o sapo não lava o pé, não lava porque não quer...". Desta vez, porém, foi diferente. Pulei a faixa "Rock das aranha", soltei a nostálgica "O dia em que a Terra parou" e disse: "Vamo ouvi um Raulzito, filho!".
Na hora, ele não disse nada e o som começou a rolar. Eis que, cantarolando o insólito refrão, notei alguns grunhidos vindos do banco de trás. Olhei pelo retrovisor e vi que aquele toco de gente tava curtindo a baladinha. Sorri sem dar bandeira. Foi, então, que o inesperado aconteceu... Finda a música, ele falou: "Põe de novo, papai"! E assim foi, até o nosso destino. Ouvimos "O dia em que a Terra parou" umas cinco vezes.
No dia seguinte, minha mulher me liga gargalhando: "Você não vai acreditar!". Ela estava no carro com o moleque. Ao fundo, reconheci a música. "Já sei", falei. Mas antes que eu pudesse completar o racioncinio, ela emendou: "Esse pirralho pediu pra eu colocar Raulzito". Missão cumprida, agora só falta o outro.
"Raul Seixas e Raulzito sempre fôro o mermo ôme, mas pra aprendê o jogo dos rato tranzo cum deus e cum lubisôme"
É verdade que o espanhol Rafael Nadal teve de desistir do torneio em razão de uma lesão no joelho. Mas a conquista hoje de mais um título nas quadras de Wimbledon faz do suíço Roger Federer uma lenda viva do tênis.
Com o resultado deste domingo, ele chega ao seu 15º Grand Slam, sobrepujando-se aos grandes tenistas da História. Para quem não acompanha, estou falando das quatro principais competições do calendário mundial: Aberto da Austrália (Sidney), Roland Garros (Paris), Wimbledon (Londres) e US Open (Nova York).
Esse resultado sela uma supremacia que dificilmente será alcançada, mesmo para o hoje mais eficiente Nadal. Tenho dúvidas até se o vigor físico deste notável espanhol não é algo que poderá causar-lhe problemas de saúde no futuro.
E é justamente esse o aspecto mais significativo da trajetória de Federer. Ele em absoluto seria o que se convencionou chamar de atleta biônico. Pelo contrário, trata-se de jogador até bastante franzino. O que fez dele o ícone que acaba de se tornar é o meticuloso equilíbrio entre suas virtudes.
Ninguém foi tão completo quanto este genial suíço, que venceu na grama, no saibro e no cimento. O requinte, a destreza e a perspicácia de seus movimentos dão a ele contornos de um maestro das quadras. Não por acaso a raquete empunhada em sua mão mais parece a batuta de um grande regente.
Federer é um desses atletas versáteis. É difícil dizer qual é o seu grande golpe. Na verdade, ele não é o melhor em nenhum deles, mas faz muito bem todos, e de um jeito um tanto peculiar. Por isso poucos ousaram vencê-lo. Superar um tenista sem pontos fracos é como nadar contra a correnteza de um rio caudaloso em seus dias mais revoltos.
Este é um dia feliz para o tênis. Diferentemente de Pete Sampras, que tinha no saque e no voleio de rede seus golpes mais temidos, e por isso venceu 14 Grand Slams, Federer é um jogador generoso com o público que o assiste, mais completo, como foi Jimmy Connors, outro monstro sagrado – aliás, ex-técnico de Andy Roddick, adversário do suíço na partida de hoje, vencida por 3 sets a 2 (com impressionantes parciais de 5/7, 7/6, 7/6, 3/6 e 16/14). A plástica de suas batidas e a capacidade de protagonizar célebres partidas como a de agora há pouco justificam tamanha majestade em quadra.
E o melhor de tudo é saber que foi Guga, já baleado, que o superou no melhor momento de sua carreira, em 2004, em Roland Garros. O brasileiro não tomou conhecimento do então número 1 absoluto do mundo e venceu a partida por 3 sets a 0, com triplo 6/4, em 1 hora e 58 minutos. Que honraria!
Há exatos 15 anos era lançada uma nova moeda no Brasil, o Real. Talvez o principal marco histórico da última década no país, que passou a desfrutar de uma inédita estabilidade econômica. Algo impensável nos anos 80.
Lembro-me de ir ao supermercado com minha mãe fazer a “compra de mês”. Íamos assim que o dinheiro do salário do meu pai caía, para que os preços não fossem remarcados e nossos cruzeiros acabassen perdendo seu valor. Lotávamos dois carrinhos com tudo o que uma casa precisa, dos mantimentos aos produtos de limpeza. Era impressionante o que aquelas máquininhas com seus sons aterrorizantes faziam...
Hoje, as coisas mudaram, nossa moeda ainda não vale a mesma coisa do que o dólar, mas a diferença de uma para a outra mudou apenas 1 real nessa década e meia. Nunca vou me esquecer da técnica de estabilização aplicada na época. Inventaram a tal URV (Unidade Real de Valor), e o Rubens Ricupero, aquele da antena paranóica e da falta de escrúpulos, virou celebridade instantânea.
Naquele ano de 1994 tive a certeza de que a teoria é capaz de organizar a prática, embora já desconfiasse que na prática a teoria é sempre outra. E neste primeiro dia do segundo semestre estou com a nítida sensação de que agora as coisas vão, tô conseguindo até organizar os infindáveis papéis do meu escritório.
Michael Jackson está morto, a História enterra mais um de seus protagonistas!
SEI LÁ
Tenho visto alguns vídeos esquisitos, mas intrigantes. Este é o primeiro de uma série de vários capítulos. Recomendo ver toda sequência. Um amigo meu, adepto da cabala, diz que não é tanta viagem assim...
Estou assustado. Não com a variante da gripe suína ou os efeitos do aquecimento global. Mas diante do crescente poder de orquestração da ONU (Organização das Nações Unidas). Fico impressionado com a capacidade do órgão de gerar histeria, e tenho dúvidas sobre a nobreza de suas causas.
Segundo uma TV mexicana, dois laboratórios que tinham vacinas recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para amenizar os efeitos do tal vírus influenza A subtipo H1N1 estavam à beira da falência às vésperas do anúncio de pandemia. Mais recentemente, um terceiro laboratório parece ter produzido uma vacina contra a já famigerada gripe A. Será coincidência?
O que mais me espanta é que, embora se diga que pairem dúvidas sobre a letalidade do vírus, o número de vítimas desta nova moléstia intercontinental é infinitamente menos significante do que o de mortos, feridos e incapacitados pela violência no Brasil (aproveito, inclusive, para sugerir a leitura desta reportagem que escrevi recentemente para a conceituada revista Pesquisa Médica).
Na mesma medida, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU vem alardeando desde 2007 que a temperatura média do planeta está subindo e que o ser humano tem grande parcela de responsabilidade nesse processo ao emitir gases causadores do efeito estufa – fenômeno natural que garante a retenção de calor na atmosfera terrestre. Será mesmo?
Considero-me um ambientalista de formação. Só para dar um exemplo, aos 13 anos de idade, conheci a parte intocada da Ilha do Cardoso, no Litoral Sul de São Paulo. Na ocasião, quase perdi minhas botas no mangue, percorri o jundu (vegetação rasteira da praia), vi de perto as cracas da parte rochosa do costa da ilha e aprendi que existem complexos ecossistemas na água acumulada entre as folhas de bromélias – aliás, foi ali que descobri o real significado de ecologia.
Por isso fico à vontade para dizer que existe algo de estranho nessa unanimidade em torno das supostas mudanças climáticas. O discurso é quase dogmático e a quantidade de pessoas que dependem dele para ganhar dinheiro tornou-se colossal. Para piorar, o "temido" aquecimento global já virou causa política. Estamos diante de um movimento que combina explosivamente interesse econômico, fundamentalismo científico e jogo político.
Claro que defendo a busca de soluções sustentáveis para o mundo. Recolho o lixo do chão quando passeio com meu cachorro pelo parque em frente de casa e fico puto quando vejo alguém jogar uma bituca de cigarro na rua. Para dar uma idéia mais precisa do que estou falando, pretendo um dia morar em uma casa com telhado de grama e sistema de reaproveitamento da água da chuva (e já tenho até de quem encomendar o projeto, do meu cunhado: veja este site dele, formidável!). Mas daí a levantar bandeiras contra o aquecimento global, e insuflar o medo em tom quase irracional, parece-me despropositado.
Respeito a opinião de pessoas como Lester Brown, autor do livro “Plan B 3.0: Mobilizing to Save Civilization” e fundador do WWI, que faz diagnósticos periódicos do estado da terra (como se ela fosse um paciente, muito interessante!). Segundo ele, se não conseguirmos reduzir as emissões de gás carbônico rápido o bastante para salvar as plataformas de gelo da Groenlândia e da Antártica, que estão derretendo, o nível dos mares subirá 12 metros, inundando muitas cidades costeiras do mundo e criando mais de 600 milhões de refugiados do avanço das águas marítimas.
São esses caras que denunciam há décadas a contaminação de lençóis freáticos e sugerem soluções na busca de energias alternativas, formas mais avançadas de plantio e assim por diante. Sempre me interessei por isso e li bastante coisa a respeito. Contudo, a aparente unanimidade em torno especificamente das famigeradas mudanças climáticas e a própria pasteurização do tema me preocupam. O mais intrigante é que as mobilizações têm se dado por causas distorcidas. Vejo que a busca pela redução de emissões ocorre muito mais em função da ameaça à espécie humana do que pela real preocupação com o equilíbrio do planeta.
A natureza é para mim a tradução do que há de mais sagrado. Ela é a vida em estado bruto. Se a transcendência existe, podemos notá-la ao olhar para uma árvore, ao sentir a força de um pingo de chuva ou ao ouvir o canto de uma coruja. O que está em jogo não é a existência crua sobre a Terra e, sim, a descoberta de uma nova e mais duradoura consciência. A única revolução que merece algum crédito é a que acontece de fora para dentro, com autoconhecimento. Precisamos resgatar a sintonia com nossa essência e reencontrar aquela longínqua espiritualidade primitiva, ancestral. E isso não tem nada a ver com o terrorismo feito em torno do aquecimento global ou com as muitas ações idiotas do Greenpeace.
Tenho um amigo que se diz conservador, ou seja, é um voraz defensor dos três pilares da sociedade ocidental: cristianismo, direito romano e filosofia grega. Segundo ele, todas as ações governamentais e institucionais atuais estão direcionadas para o mesmo objetivo: controle! Ainda na interpretação dele, existe hoje uma luta entre os direitos individuais e os coletivos, sendo o coletivismo sustentado pela elite financeira mundial.
Para esse meu amigo, e seus tutores, Olavo de Carvalho e Heitor de Paola, a situação é crítica. Eles garantem que as esquerdas já vêm cumprindo os mandamentos de Antonio Gramsci e colocando em prática a chamada revolução cultural, que objetiva destruir os pilares conservadores para tomar o poder e se perpetuar nele sem resistência. E alertam que a mente revolucionária faz das pessoas imbecis úteis, que dão sustentação para políticos populistas e arbitrários que se apossam do poder como genuínos parasitas, eliminando de forma implacável todos os que atravessam seu caminho. Denunciam ainda que a democracia destes “coletivistas” esta longe de ser uma democracia que zela pelos direitos individuais. Ao contrário, poda-os cada vez mais em nome do bem coletivo.
Mas o que a ONU e o governo mundial tem a ver com tudo isso? A princípio, David Rockeffeller! Ele é o fundador do Council on Foreign Relations (CRF), que tem como objetivo criar as bases de um governo globalizado mundial (veja o canal de informações deles). O magnata estaria por trás do “czar cibernético” lançado por Obama e de outras maquinações. “O mundo está mais sofisticado e preparado para caminhar na direção de um governo mundial. A soberania supranacional de uma elite intelectual e de banqueiros mundiais é de fato preferível à independência que havia nos séculos passados”, teria dito Rockeffeller. “Agradecemos ao Washington Post, ao New York Times e a outros grandes jornais cujos diretores frequentaram nossas reuniões e cumpriram suas promessas de sigilo por quase 40 anos. Teria sido impossível para nós desenvolver nosso plano para o mundo se tivéssemos sido expostos à luz da publicidade durante todos aqueles anos.”
Bom, a idéia desses caras é capitalizar a globalização. E a ONU seria a grande ferramenta para isso... Esse meu amigo gosta de lembrar que o terreno onde hoje está a sede das Nações Unidas foi doado pela família Rockeffeller. Assim como as ditaduras permitiam um controle melhor de muitos países por parte das duas grandes potências durante a Guerra Fria, o governo mundial seria o novo órgão de controle do mundo. Quem teve essa idéia certamente não é um idiota. Não por acaso a ONU poderá intermediar comunistas, fundamentalistas, imperialistas e todas as correntes políticas, se sobrepujando a todas elas. “E ainda dizem que ela quer paz”, critica esse meu amigo. “Acho que não: o dinheiro que entra para pacificar nações é muito volumoso para que se deseje o fim das guerras!”.
Diante de tantas intrigas, conversei recentemente com o pai de um amigo meu, um professor de História daqueles que encantam quando falam. Seu nome é Raymundo B. Campos, autor de belos livros. Ele me confirmou que a adoração que se tem pelos grandes líderes de esquerda é uma bobagem. Disse que o filme sobre Che Guevara é risível e que perdeu um grande amigo quando este se opôs a Fidel Castro. Também lembrou que Stalin exterminou mais gente do que Hitler. Ou seja, confirmou o que todos sabemos: os líderes comunistas são ditadores sanguinários. “O que me impressiona são os mitos, os arquétipos. Acho que a história precisa entender melhor a relação que temos com os mitos para poder explicar de maneira mais ampla os rumos tomados pelas diferentes sociedades”, disse-me com a vitalidade de um moço.
Falamos ainda sobre fragmentação de poder e de uma inevitável criação do governo mundial. Não deu para tirar grandes conclusões, apenas sentir o gostinho da sabedoria de um incansável estudioso. Da minha parte, continuo achando que a sociedade humana mostra-se cada vez mais inviável. Apesar de me embasbacar com a engenhosidade e a fé de nossa espécie, frustro-me toda vez que vejo a incapacidade de as pessoas conviverem sem serem intermediadas. E acabo sofrendo em dobro porque sei que a desilusão é parte da estratégia política desses caras. Mas é que sonho com uma vida impossível sem prisões ou juízes. E acho desprezível qualquer sobreposição de pensamentos. Sem liberdade para a alma, a vida perde o brilho.
Em tempo: Obama está propondo que o Federal Reserve tenha novos poderes para regular grandes empresas financeiras (segundo meu tal amigo, Barack consolidou-se candidato após jantar com membros do clube Bilderberg, donos do FED, dois meses antes de a crise estourar).
Terminou tudo bem. Minha mãe já teve alta e está em casa com a mesma cara de antes da cirurgia. Nem parece que sofrera uma mutilação. Agora, terá de aguardar a cicatrização dos pontos para retirada de um discreto dreno com o qual conviverá por cerca de dez dias. Depois, iniciará as sessões de rádio e quimioterapia. Estou feliz e aliviado. Sinto a vida renovada. Vejo a generosidade do destino e percebo que uma nova etapa se descortina. Agradeço a todos pelos apelos, pelo apoio e pela corrente. Ter amigos faz bem e a felicidade é contagiante, conforme escrevo nesta reportagem para a revista Saúde.
Minha mãe está com câncer. Será internada daqui a pouco para retirada total de sua mama direita. A cirurgia acontecerá amanhã e deve durar de duas horas e meia a três horas. Estamos todos apreensivos.
Ela me ligou hoje cedo para pedir que explicasse aos meus filhos as conseqüências da operação. “Diga a eles que não poderei carregá-los no colo, mas que vou continuar amando-os muito”, falou. “Procure falar com os dois juntos”.
Farei isso. Não sei bem como, mas farei... Tentarei explicar para duas crianças, um de um ano e outro de quase três, algo que estou tentando entender desde o dia do diagnóstico.
Tentarei também conter as lágrimas na frente deles para não assustá-los mais do que já estão – embora não saibam, certamente sentem o que está havendo. Mesmo porque a principal preocupação não é com as seqüelas da mutilação e, sim, com os riscos de uma cirurgia em uma portadora de diabetes e hipertensão.
Foram semanas difíceis. Somente na última sexta-feira tivemos a confirmação de que um suposto nódulo no fígado não era metástase. Espero, torço e rezo para que tudo termine bem.
Até agora, o destino conspirou a nosso favor. As circunstâncias permitiram que ela caísse nas mãos de uma equipe aparentemente cautelosa e apta para fazer o que tem de ser feito. Também permitiram que ela descansasse bastante e se cuidasse como nunca: emagreceu 18 quilos e sua dieta tornou-se mais saudável do que a de qualquer um que está lendo este texto. E, no frigir dos ovos, até minha irmã caçula que mora fora do Brasil pôde ser formar, participar da cerimônia de entrega dos prêmios que recebeu e chegar a tempo para a cirurgia.
É difícil pensar na morte, especialmente quando se está falando da própria mãe. Mesmo que seja apenas no formato de uma possibilidade... Mas, admito, é ainda mais difícil pensar na vida. Nessas horas, a mesquinhez e o orgulho ficam pequenos. E brota não se sabe de onde aquela vontade de dizer a ela tudo o que nunca disse... Contudo, aquelas travas com as quais nos armamos no decorrer dos anos parecem ganhar novo vigor e nos entorpecem com um sentimento de paralisia.
Estou confuso. Do ponto de vista da filosofia, da existência e da medicina, acho que fui um excelente conselheiro. Já como companheiro talvez tenha deixado bastante a desejar, ainda bem que tenho uma irmã forte para tais momentos. Mas é como filho que sinto as coisas meio perdidas.
Falamos sobre assertividade recentemente. Também falamos sobre perdão... Queria entender de onde vem a auto-estima. Por que nos depreciamos tanto? Por que tanta dificuldade de aceitar as coisas como elas são? Por que tanto pensamento? Por que é tão difícil só chorar?